A droga do amor
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de maio de 1997
Nelson Sato 
Reprodução
Ecstasy e a Cultura Dance: histórico sobre a droga que virou moda da garotada européiaDeclarações polêmicas podem render vantagens e dores-de-cabeça para seu autor. Foi o que aconteceu com o inglês Nicholas Saunders, ao exagerar na dose em seu livro Ecstasy e a Cultura Dance, que a editora Publisher está lançando no Brasil num momento em que o consumo da droga começa a se espalhar pelo País fora do eixo Rio-São Paulo.
O volume, que tem prefácio da colunista Erika Palomino, traz a seguinte pérola de Sanders em uma de suas páginas: Todas as atividades implicam risco, mas aqueles que montam cavalos a grande velocidade estão arriscando muito mais suas vidas e sua saúde. O risco que se corre ao tomar Ecstasy é comparável ao de ir a um parque de diversões ou a andar de carro.
Saunders, como se vê, não fica em cima do muro. Toma posição e defende a legalização da droga que, segundo ele, pode ser usada até para tratamentos psíquicos. Em sua opinião, o ecstasy é vítima de medidas coercitivas furadas e de tratamento sensacionalista da mídia.
O ecstasy é uma pílula do tamanho de um comprimido para dor de cabeça, que ao ser ingerido provoca efeitos como acelerar as batidas cardíacas, aumentar a temperatura do corpo e dar sensação de leveza, prazer e euforia. Na Inglaterra, ganhou o apelido de droga do amor.
Ecstasy e a Cultura Dance é abrangente reunindo um calhamaço de informações sobre a origem, a disseminação e a inserção da droga entre os jovens adeptos da música eletrônica dançante. Embora apresente estatísticas e dados científicos, pode ser lido numa sentada. Foi lançado há quatro anos na Inglaterra e virou best-seller vendendo 250 mil exemplares.
Ibiza O sucesso foi tanto que Saunders largou seu negócio para se dedicar integralmente à pesquisa de novas drogas. Suas primeiras experiências com o ecstasy ganham relato logo no primeiro capítulo, onde conta que dançou até as seis da manhã sem fazer esforço depois de tomar uma cápsula durante uma festa. Sei que normalmente me sentiria completamente exausto depois de uma hora de exercício tão pesado - confessa.
Ecstasy e a Cultura Dance apresenta um minucioso levantamento histórico. Revela como a composição química MDMA (metilenodioxidometanfetamina) , o princípio ativo da droga, foi patenteada em 1912. Fala da descoberta de suas virtudes terapêuticas seguida de síntese em laboratório pelo bioquímico Alexandre Shulgin, em 1965.
Mostra como caiu no mercado negro e no consumo de estudantes universitários americanos. Aponta sua explosão ao se transformar na droga preferida dos clubes noturnos de Ibiza (Espanha), no final da década de 80, e fecha dois capítulos tratando exclusivamente do ecstasy como fenômeno cultural associado às raves (famosas festas realizadas em galpões e armazéns abandonados) e clubes after hours (aqueles que começam às quatro da matina e terminam ao meio-dia).
O livro tem quase 300 páginas de pesquisa exaustiva. Engana-se, porém, quem achar que Sanders esgotou o assunto. As livrarias inglesas acabam de receber um book intitulado Altered State - The Story of Ecstasy and the Acid House (Estado Alterado - A História da Cultura do Ecstasy e da Acid House), assinado pelo jornalista Michael Collin.


