A DRAMATURGIA DO CHORO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de maio de 2001
Jackeline Seglin De Londrina 
A facilidade que as atrizes argentinas Jimena Anaganuzzi e Paula Itturiza têm para chorar rende momentos emocionantes no espetáculo Cachetazo do Campo, em cartaz no Filo
A montagem que abriu ontem a programação artística do Festival Internacional de Londrina (Filo) já deu o que falar antes mesmo de ser levada ao palco. O motivo é a choradeira das atrizes argentinas Jimena Anganuzzi e Paula Ituriza em Cachetazo do Campo. O espetáculo não é nenhuma oficina de como verter lágrimas, mas o choro é a base da montagem do diretor e autor Federico León.
Cachetazo... mostra uma relação desgastada entre mãe e filha. Uma situação universal, que aborda dilemas e embates decorrentes da falta de comunicação. Nem por isso o conflito entre as duas tem no choro o motivo do seu desabafo. É que as lágrimas não vêm apenas nos momentos difíceis. O público questiona como essas mulheres podem chorar em outras situações, tão absurdas! E acaba rindo, conta a assistente de direção, Tatiana Saphir. Essa é uma das situações do espetáculo. O espectador pode entrar em qualquer código: se identificar, chorar ou até mesmo rir. Tem mães que assistem e buscam identidade com a personagem.
Choronas profissionais, como já foram chamadas na Argentina, Jimena e Paula dizem não se utilizar de artifícios para se debulhar em lágrimas durante uma hora de espetáculo. Para elas, o choro é uma questão de facilidade física. O que também ocorre na vida real, já que as duas não descobriram a potencialidade por acaso. Elas assumem que são choronas desde criança.
Na hora de entrar em cena, nada de recorrer a truques. É real o momento que estamos vivendo. É a base da obra, diz Paula Ituriza, atriz de 30 anos que interpreta a personagem da mãe. Mas para isso é fundamental a relação entre as duas personagens. O choro é um estado que sucede esse momento, conta.
Apesar de as atrizes registrarem um distanciamento das suas personagens, em alguns momentos as lágrimas podem cair pra valer. Depende da conexão das duas. Às vezes, elas estão chorando de verdade. Isso pode acontecer, por exemplo, na hora de um abraço. Outras vezes, é somente a personagem, salienta Tatiana. A assistente, entretanto, garante o domínio das atrizes em cena, o que não abre brechas para um descontrole emocional.
No espetáculo, mãe e filha resolvem se afastar das neuroses da cidade grande e se refugiar numa casa de campo, com o intuito de ir fundo em suas crises. Surgem então coisas do passado, revelações que vêm à tona porque elas estão fora de seu ambiente, diz Tatiana. É a hora da verdade absoluta.
Um terceiro personagem entra em cena para intermediar o conflito. Ele simboliza exatamente o campo. Interpretado pelo ator Germán de Silva, de 47 anos, o campo representa o outro mundo. Ele intermedia o confronto entre as duas e dá suas opiniões, mas fracassa o tempo todo. Aí vem a ironia de achar que pode resolver alguma coisa. Na verdade, os mundos se contaminam.
Jimena Anganuzzi, 23, que interpreta a personagem da filha, explica que Federico León criou a obra a partir de improvisações. Como sabia da nossa facilidade para chorar, descobriu uma maneira de partir disso para escrever o texto, conta. Paula Ituriza lembra que a intenção inicial das atrizes era apenas trabalhar juntas. O choro foi incorporado à proposta, comenta. Em outros espetáculos não funciona assim. É que na obra de León, todo o trabalho está baseado nesse estado. É a maneira delas se comunicarem, completa.
Para quem quiser rir, chorar ou se anular junto com mãe e filha, Cachetazo do Campo será reapresentada hoje, às 23 horas, no Núcleo I.
Cachetazo de Campo, espetáculo de Federico León, da Argentina. Com Paula Irutiza, Jimema Anganuzzi e Germán de Silva. Direção: Federico León. Assistente de direção: Tatiana Saphir. Técnico de som e luz: Ivan Korosec.


