A dor transformada em criatividade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Roberto Nascimento<br>Agência Estado 
O virtuosismo do produtor Steve Ellison se manifesta nos cliques de mouse com que produz a viscosa matéria de mundos musicais longínquos, prenhes de beleza e mistério. ''Cosmogramma'', seu novo disco, foi lançado nos EUA em maio e chega agora às seções de importados de lojas especializadas brasileiras. É uma obra prima que resume o trabalho de Ellison, que atua sob o nome de Flying Lotus e desbrava novos caminhos para a vanguarda do hip-hop e do jazz.
É possível se deleitar apenas com as texturas de ''Cosmogramma''. Samples de harpas e sintetizadores manipulados com rara destreza criam a flora e a fauna de um universo suspenso, imprevisível, que ora nos confunde com ritmos vertiginosos, ora nos seduz com chiados de bules e chaleiras que remetem a dias chuvosos e parecem nos convidar ao aconchego de um bom papo.
O vanguardismo instrumental também está presente. Faixas como ''Do the Astral Plain'', calcadas em dub step, drum n'bass e hip hop esticam, destroem e recombinam ritmos com a habilidade de um exímio baterista.
''Cosmogramma'' é o terceiro da carreira do jovem produtor californiano de 26 anos. Mostra uma nítida ascensão criativa depois dos bons ''1983'' e ''Los Angeles''. É o primeiro de Ellison lançado pela Warp Records, o famoso selo que produziu, no início dos anos 90, trabalhos seminais por músicos como Aphex Twin e Autechre.
Ellison teve sua criatividade nutrida, em primeira mão, pela realeza da música instrumental americana. É sobrinho de ninguém menos que Alice Coltrane, a grande pianista, líder espiritual e mulher do titã do sax John Coltrane. Quando criança, Ellison frequentava, nos subúrbios de Los Angeles, um dos templos do guru indiano Sathva Sai Baba, em que Coltrane era sacerdotisa. Do piano, sua tia comandava saraus apoteóticos que viriam a fazer com que Ellison visse a música como ferramenta de superação - aprendizado que foi fundamental na concepção de ''Cosmogramma'', quando o músico, ainda de luto pela morte de sua mãe, lidou com a dor usando a criatividade.
Além de seu primo, o influente saxofonista Ravi Coltrane, o disco conta também com a participação de Thom Yorke, do Radiohead, que um dia, para a alegria de Ellison, pediu que o produtor lhe enviasse um trecho de música pela internet. Dias depois, já tendo perdido a esperança, Ellison abriu sua caixa de mensagens e lá estavam os vocais da bela ''And The World Laughs With You''.


