Há dois anos – exatamente no dia 12 de fevereiro de 2012 – os londrinenses assistiam atônitos a uma imagem chocante: o Teatro Ouro Verde em chamas, em plena tarde de domingo. Antigo patrimônio cultural da cidades, o espaço era símbolo dos tempos áureos da cafeicultura paranaense e da efervescência cultural da região. O evento trágico provocou comoção geral e vários setores da sociedade não mediram esforços para reerguer o Ouro Verde. No mês passado, as obras de restauro foram finalmente iniciadas e a expectativa é de que até 21 de julho de 2015 o nosso velho Ouro Verde esteja repaginado, novinho em folha.
Mas, no intervalo de tempo até a reforma começar, as ruínas do Ouro Verde também inspiraram diversos artistas da cidade, que tiveram sensibilidade artística de ver no caos uma chama de esperança, como uma sutil homenagem a um espaço cultural tão importante. De certa forma, exaltando a vocação artística do local que - mesmo queimado, sem palco, poltronas, piso e cortinas - ainda exalava arte.

Locação perfeita
O cantor e compositor Rodrigo Garcia Lopes gravou no Ouro Verde o clipe da sua canção funk-rap "New York" (do seu último disco Estúdio Realidade), em maio de 2013, um ano após o incêndio. A ideia partiu do diretor Anderson Craveiro, que viu no cenário caótico a locação perfeita para reproduzir o conceito de "caos urbano" que a canção tão bem retratava. Até as texturas das paredes queimadas foram aproveitadas e serviram para a projeção de imagens referentes a Nova York e suas "camadas de civilização", como diz a canção.
Em três dias de gravação exaustiva, Lopes lembra que ficou chocado e sensibilizado na primeira vez que viu o que restou do Ouro Verde. "Quando o incêndio aconteceu não estava em Londrina e, sinceramente, não achava que esse tipo de coisa pudesse acontecer. Entrar lá foi poder relembrar os meus passos naquele lugar e toda a minha ligação afetiva com ele. Fiquei aliviado e espantado ao ver que a estrutura externa foi preservada e o que restou parecia uma arena para espetáculos punk e filmes trash. Uma coisa até meio gótica e sombria", observa. O clipe pode ser conferido na internet (https://vimeo.com/66611174).
O diretor Anderson Craveiro guardou na memória a reação do músico. "Demorou uns 15 minutos para ele se concentrar. Eu já tinha entrado antes no local, logo que o incêndio aconteceu e tinhas mais escombros. E quando conversei com o Rodrigo sobre o clipe, achei que ali seria a locação perfeita. Apesar de tudo, havia beleza naquele local. Aquele cenário caótico de certa forma me inspirou", afirma Craveiro. "É como se o Ouro Verde em ruínas fosse a ‘síntese’ do caos, um lugar metafórico que representasse o caos e o fluxo da vida, como a música. Aliás, devido ao incêndio, foi até possível ver o palco original, agora sem a cobertura de madeira", acrescenta o diretor.

‘O Ouro Verde mora em mim’
A fotógrafa e artista plástica Fernanda Magalhães estava chegando de avião a Londrina quando avistou a coluna de fumaça que subia de um ponto do centro da cidade, ainda sem saber que era do Ouro Verde. Extremamente sensibilizada pela perda do patrimônio histórico, ela conta que na hora que soube do incêndio teve a ideia de fazer mais uma edição do seu projeto "A Natureza da Vida", quando posa nua, nos mais diferentes locais públicos, para fotografia e vídeo, em um trabalho de intenso questionamento estético e político.
"O incêndio do Ouro Verde mexe nas minhas entranhas, um espaço de intimidade na minha vida. Frequento o teatro por incontáveis vezes desde minha infância. O Ouro Verde mora em mim, no meu corpo, faz parte de minhas referências, de meu imaginário, de minhas memórias", enaltece.
Seu "encontro artístico" com o Ouro Verde só veio acontecer em março de 2013, e contou com a participação do jornalista e fotógrafo Luciano Schmeiske Pascoal, que registrou as imagens. "Somente consegui ir ali um ano depois, no dia das fotografias. Nem em frente eu conseguia passar. Era necessário sentir meu corpo ocupando uma última vez aquele espaço, dançar naquele lugar, sentir meu corpo e o corpo do teatro. Ainda que queimado, no meio de seus escombros, a energia daquele lugar preencheu o vazio deixado em mim. Foi necessário sentir com o corpo nu, sentir na pele aquelas cinzas, aquelas paredes, aqueles buracos... O cheiro intenso de queimado impregnou o meu corpo e custou a sair. Muito tempo depois ainda podia sentir o cheiro que exalava do que restou dali. Foi um ritual de despedida", ressalta.

Contraste de emoções
O nu como forma de expressão artística também motivou um grupo de 13 alunos do curso de artes cênicas da Universidade Estadual de Londrina a "invadir" o Ouro Verde, em 11 de novembro de 2013, e reverenciar o espaço com seus corpos desnudos, homenageando também o trabalho de Fernanda Magalhães.
A atriz Camila Fontes participou daquele registro-arte e ficou marcada pelo contraste de emoções que sentiu. "Ver o Ouro Verde daquele jeito, ao mesmo tempo que entristeceu, me fascinou; é lindo vê-lo em ruínas, é inspirador, sem dúvida isso foi transformado em arte na nossa ação e para tantos outros artistas que pisaram lá. O que conforta é ‘acreditar’ que ele voltará com outra forma de vida e potência", reconhece. "Sinceramente, espero que isso tenha vindo para o bem, que ele seja reconstruído e contribua para a cidade e a sociedade londrinense, reconhecendo o valor do olhar sensível e o que é produzido por artistas que lidam com a matéria humana", conclui.

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