A dor e a delícia
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de abril de 2015
Geraldo Bessa<br> TV Press 
Adriana Esteves se esforçou muito para chegar onde está. A resposta para as críticas que recebeu no início da carreira são os muitos prêmios e vários papéis de protagonistas que ela ostenta no currículo. Aos 45 anos, Esteves sabe que não precisa provar mais nada. No entanto, não consegue viver estagnada. E é com curiosidade e fôlego de iniciante que ela fala de Inês, sua invejosa personagem em "Babilônia". "O mais interessante da carreira de atriz é o quão tudo pode ser surpreendente. Quando você acha que já fez de tudo, vem uma personagem e te faz buscar novas referências e seguir por outros caminhos. Inês é exatamente esse tipo de papel. Acredito que eu ainda estou a encontrando", explica.
Com reconhecida versatilidade e tendo trabalhado com autores dos mais diversos, a participação na atual novela das nove marca o encontro de Esteves com o texto elegante de Gilberto Braga. "Sempre fui fã das novelas dele. Fiquei bem nervosa quando fui convidada", entrega, com os olhos atentos que ainda lembram a jovem modelo que ganhou um concurso de atuação no "Domingão do Faustão", em 1989.
Foi por conta dessa vitória que a atriz teve sua primeira oportunidade na tevê, um papel pequeno na clássica "Top Model". A partir daí, se destacou em novelas como "Meu Bem, Meu Mal" e "Pedra Sobre Pedra". Mas também teve de enfrentar uma enxurrada de críticas pela complexa Mariana de "Renascer".
Após uma breve passagem pelo SBT, retornou à Globo e ao posto de protagonista em "A Indomada", de 1997. "Tudo o que passei me ajudou a ser a atriz que sou hoje" analisa Esteves, que ainda teria outros momentos de destaque em produções como "Dalva e Herivelto Uma Canção de Amor", de 2010, e na popular "Avenida Brasil", de 2012. "A vida não é só ganhar. É preciso entender isso e saber seguir em frente", afirma.
"Avenida Brasil" foi exibida em 2012 e Carminha ainda é um tipo muito "vivo" na memória do público. Você teve algum receio em fazer outra personagem recheada de vilanias em "Babilônia"?
Não. Desde que fui convidada, eu sabia que a personagem seguiria por um caminho pouco ortodoxo. O modo como se portam e o tipo de trabalho ajudam a distanciá-las. Carminha tinha aquele humor corrosivo, irônico e sem vergonha, que garantiu o enorme apelo popular que persiste até hoje. A Inês já é do tipo obsessiva, não é de uma linha mais tradicional de vilãs. Não a considero totalmente má, inclusive.
Por quê?
A construo como uma mulher eternamente insatisfeita, que acha que a grama do vizinho é sempre mais verde, não consegue viver com o que tem. Inveja existe em todos nós. Não só a gente sente como já sentiram da gente. É normal do ser humano. Os dilemas em "Babilônia" são outros. Portanto, não vi problema em retornar aos folhetins com essa personagem. Na primeira parte dos anos 2000 eu acumulei muitas heroínas cômicas, é uma fase. No momento, estou onde quero estar. Inês é aquele tipo de personagem que tira a intérprete do lugar comum.
Como assim?
Já fiz mulheres decididas, mocinhas sonhadoras e vilãs ardilosas. A Inês não entra nesses escaninhos. Ela é amargurada, mas não por ter fracassado na vida. Ela não quer o "poder", quer apenas viver a vida de outra pessoa, no caso, da Beatriz (Glória Pires). Essa é a maior glória e sofrimento da personagem. Em 26 anos de televisão, eu tive alguns momentos muito importantes e acho que a Inês é mais um.
Quais outras personagens também representam esses pontos de "virada" na sua carreira?
São muitas. "Pedra Sobre Pedra" foi minha primeira protagonista, em "Renascer" aprendi a lidar com críticas e a me superar, "A Indomada" e "Torre de Babel" foram trabalhos deliciosos que me deram versatilidade. Em "O Cravo e a Rosa" e nas temporadas de "Toma Lá, Dá Cá", mergulhei na comédia. E logo depois fiz um dos meus trabalhos mais complexos em "Dalva e Herivelto - Uma Canção de Amor", até "Avenida Brasil" e aquele estouro que foi a Carminha e a novela como um todo. Quando a gente está trabalhando e gosta do que faz, o "upgrade" é todo dia. Cada projeto torna-se muito significante.
Você costuma passar muito pouco tempo distante dos estúdios de televisão. O que a levou a ficar quase três anos sem ser escalada para uma novela?
Eu precisava desse tempo e a emissora também queria que o público esquecesse um pouco de "Avenida Brasil" para eu poder voltar ao ar. Mas fiz a minissérie do Fernando (Meirelles) em 2014 e ainda utilizei esse tempo livre para fazer dois filmes, o "Mundo Cão", do Marcos Jorge, e o "Beleza", do Jorge Furtado, que devem ser lançados até o final do ano. Não fiquei tanto tempo parada em casa. Acho que nem conseguiria.


