O prêmio máximo do 62º Festival de Cannes irá pelo segundo ano consecutivo para um filme francês ? Após a inquestionável unanimidade que em 2008 consagrou ''Entre os Muros da Escola'' (estreia dia 6 de junho no Cine Com-Tour/UEL), os anfitriões da festa - e boa parte dos convidados - apostam no filme de Jacques Audiard, o drama penitenciário duro e seco que, escapando com talento de todos os clichês do gênero, faz acurada radiografia do nascimento de um novo perfil de big boss do crime organizado.
Jane Campion também surge muito bem cotada, numa espécie de segundo lugar nos prognósticos, com um elegante e sensível retrato do amor, personificado pelo poeta John Keats e sua amada Fanny Brawne. Pedro Almodóvar, embora sem acrescentar muito ao que de bom já se conhece do cinema dele, aparece por fora, mas bem posicionado. Franceses e americanos gostam dele quase sem restrições, e a isto se acrescente o privilegiado momento artístico - e de marketing, por que não ? - de Penélope Cruz.
Outros dois franceses, ''Les Herbes Folles'', de Alain Resnais, e ''A L'Origine'', de Xavier Giannoli, também não desapontaram, especialmente o octogenário Resnais, que conta a vida e suas surpresas como se fosse um jovem veterano. Outros filmes com bem mais virtudes que problemas são o inglês ''Looking for Eric'', de Ken Loach; o único italiano da competição, o muito expressivo ''Vincere'', de Marco Bellochio, e o melhor filme até aqui na carreira do austríaco Michael Hanecke, ''Das Weisse Band''.
Loach fez o filme talvez mais simpático do festival, uma homenagem ao futebol e à busca das ilusões perdidas, na figura do ex-ídolo do Manchester United, o francês Eric Cantona. Uma crônica alucinada envolvendo paixão e poder é o que narra Bellochio, que vai às raízes do fascismo através da relação carnal de Benito Mussolini tanto com sua primeira mulher, Ida Dalser, como com o poder totalitário. Hanecke, por sua vez, traçou um impenitente retrato do mal que resulta das repressões, uma espécie de revisita ao território bergmaniano de ''O Ovo da Serpente''.
Pelo caminho foram ficando as decepções. Primeiro as grandes, como Tarantino. O mundo deve ter visto anteontem na tevê as imagens do diretor e seu elenco subindo a escadaria escarlate do Palais, ele ensaiando passos de rock em roll numa esfuziante demonstração performática. Foi isto mesmo em que se transformou o cinema dele (se é que não foi assim desde o inicio), uma performance. Tarantino em Cannes não é concorrente, ele é o evento, coisa de que o Festival com certeza sempre vai precisar.
Depois, outras frustrações menores. A de Ang Lee, de quem se esperava menos superficialidade em ''Taking Woodstock'', e a do chinês Johnny To, que fez patchwork de citações em ''Vingança'', um momento de epifania para os fãs do cantor pop Johnny Hallyday. A do filipino Brillante Mendoza, que em ''Kinatay'' deu um arrepiante mergulho na noite sanguinária de Manilla, ao narrar com precisão cirúrgica as sevícias, o assassinato e o esquartejamento de uma prostituta pela própria polícia corrupta. Ou ainda mais arrepios gratuitos por conta do ''Anticristo'' de Lars von Trier, psicanálise fake às custas e de novo muito sangue e pretensão desmedida.
Restam para conferir entre hoje e amanhã as ultimas fichas do jogo: o taiwanês Tsai Ming-liang, a catalã e única estreante da competição, Isabel Coixet, o palestino Elia Suleiman e o francês Gaspar Noé.

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