A DOCE CONTRAVENÇÃO DA LITERATURA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de outubro de 2000
Marcos Losnak Especial para a Folha 2 
A literatura sempre foi, nas mais diferentes épocas, um meio de transformação dos homens. Com sua imensa capacidade de abrir os reservatórios do espírito humano e os armazéns da existência, provocou pequenas revoluções invisíveis a que o tempo se encarregou de dar corpo.
Inúmeros escritores, crentes desta capacidade heróica da literatura, fizeram do próprio assunto tema de seus escritos. Um dos exemplos está em O Carteiro e o Poeta do romancista chileno Antonio Skármeta que, ao ser transformado em filme, arrancou lágrimas de espectadores do mundo inteiro.
Essa abordagem volta às livraria com o lançamento de Balzac e a Costureirinha Chinesa, primeiro romance do cineasta chinês Dai Sijie. Publicado no início do ano na França, país em que o autor reside há quinze anos, a obra se tornou uma revelação literária. Próximo dos quase duzentos mil exemplares vendidos, é um dos fortes concorrentes ao prêmio Goncourt de 2000.
Balzac e a Costureirinha Chinesa é uma romance leve, escrito de maneira simples e com um dos dois pés na linguagem cinematográfica. Em breve, terá sua estréia nos cinemas dirigido pelo próprio Dai Sijie. A história se passa no final dos anos 60 na China, época em que o presidente comunista Mao Tsé-tung instaurou a chamada Revolução Cultural. Com o fechamento de grande parte das universidades, os estudantes foram enviados às regiões mais distantes do país para trabalharem como camponeses. Tratava-se de uma reeducação dos jovens influenciados pela cultura burguesa do ocidente.
Os personagens principais de Balzac e a Costureirinha Chinesa são dois amigos adolescentes que são enviados à uma pequena aldeia do interior, escondida no topo de uma montanha, para cumprirem a reeducação. Levando uma vida dura, são incumbidos pelo chefe do lugar de viajarem até a cidade mais próxima, assistirem os filmes em exibição e, na volta, narrarem a história para os habitante do lugar. Nessas viagens, entram em contado com outro adolescente, também reeducando que mantém em seu poder vários romances ocidentais, obras totalmente proibidas pelo regime comunista chinês.
Ao devorarem, pela primeira vez na vida uma história ocidental, um romance de Honoré De Balzac, uma verdadeira revolução ocorre: Imaginem um jovem casto, de dezenove anos, ainda dormindo no limbo da adolescência, que até então só conhecia a lengalenga revolucionária sobre patriotismo, comunismo, ideologia e propaganda. Repentinamente, como um intruso, o livro me falava do despertar do desejo, dos impulsos, das pulsões, do amor, de todas essas coisas sobre as quais jamais ouvira falar.
Deslumbrados com a literatura estrangeira, um mundo completamente novo, os garotos serão capazes de fazer qualquer coisa para conhecerem outras histórias, outros romances. Para isso, numa perigosa aventura, decidem roubar os livros do amigo. Dessa forma, conhecem obras de escritores como Balzac, Victor Hugo, Stendhal, Dumas, Flaubert, Baudelaire, Romain Rolland, Rousseau, Tolstói, Gogol, Dostoiévski, Dickens, Kliping, Emily Bronte e outros.
Tentando seduzir a menina mais bonita do lugar, a filha de um velho alfaiate viúvo, os garotos partem para um nova aventura. Passam a contar para ela, numa espécie de rituais narrativos, as histórias dos romances que acabam de conhecer. Há nesse processo um objetivo maior e mais ousado: transformar a jovem e bela costureirinha, uma rude camponesa, numa sofisticada mulher com uma mente moderna e cosmopolita. Isso para que sua beleza camponesa entre em sintonia com a beleza de uma liberdade cultural. Para isso fazem o uso da magia da literatura ocidental.
O drama apresentado por Dai Sijie está no fato de que, ao entrar em contado com um novo mundo através da literatura, a garota sofre uma irreversível transformação. Decide trocar a literatura pela realidade. Para isso precisa abandonar, para desespero dos meninos, a aldeia.
Em outras palavras, ao utilizarem a literatura como instrumento de transformação feminina, assistem a menina se converter em mulher e tomar as rédeas de sua própria vida. Nesse ponto, a literatura, a alegre força transformadora, torna-se um instrumento de perda - pois a mulher conquistando asas sentirá o irresistível desejo de voar. Ou seja, tudo aquilo que a literatura havia concedido aos garotos, passa a ser retirado. Isso porque a vida se revela maior que a literatura. E a literatura sem a vida torna-se um sentido grávido de morte.
Balzac e a Costureirinha Chinesa de Dai Sijie, Editora Objetiva, tradução de Vera Lúcia dos Reis, 156 páginas, R$ 18,90.


