A divina é reverenciada
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terça-feira, 15 de julho de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Arquivo folhaElizeth Cardoso: roupas bonitas e sorriso largo para agradar ao públicoMagnífica, Enluarada, A Divina. Poucas cantoras tiveram títulos como estes, e mais raras ainda aquelas cujos títulos caíram como uma luva. Elizeth Cardoso, que tinha vontade de se enfiar no chão toda vez que era saudada nas ruas do Rio como Divina, fez por merecer todos eles. Se ainda vivesse, completaria 77 anos hoje. A Rádio Educativa FM, de Curitiba, estará homenageando a artista com um programa especial.
Elizeth Cardoso, a Divina, Nascida para Cantar será levado ao ar pela emissora (no dial, 97.1) às 13h30. Terá uma hora de duração. Haverá reprise no domingo, no mesmo horário. Os 60 minutos do programa trarão algumas das melhores interpretações de Elizeth como Poema dos Olhos da Amada, de Paulo Soledade e Vinícius de Moraes; Canção da Manhã Feliz, de Luiz Reis e Haroldo Barbosa; Mensageiro da Saudade, de Ataulfo Alves e Jota Batista; Faxineira das Canções, de Joyce; Folha Morta, de Ary Barroso.
Não poderia faltar na lista Canção de Amor, de Chocolate e Elano de Paula, música que a levou ao estrelato, em 1949. Foi com essa gravação que Divina significaria para sempre o mesmo que Elizeth Cardoso. Este e outros dados da vida da cantora serão lembrados no transcorrer do programa, produzido pelo pesquisador Alceu Schwab com a colaboração do produtor Ronald Magalhães.
Elizeth Moreira Cardoso nasceu perto do Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, filha de Jaime e Maria José Cardoso. Os pais costumavam promover serestas e rodas de samba em casa. Desde muito pequena envolvida com a música, tinha 16 anos quando cantou numa festa de aniversário. Ali estava Jacob do Bandolim, que já era um homem de rádio. O fascínio foi imediato. Nascia também nesse momento uma amizade que iria durar até a morte de Jacob.
O bandolinista levou a garota para a Rádio Guanabara, onde iniciou a carreira. Mas até o estouro com Canção do Amor, a estrada seria longa e incerta. Elizeth integrou uma companhia de teatro de revista, trabalhou em salão de cabeleireiro, lojas e cabarés. Casou-se com Ary Valdez, tendo com ele dois filhos. O sobrenome Valdez ela usaria até o fim da vida.
Varrendo e cantandoMulher de hábitos simples, no palco transformava-se em estrela. Em respeito ao público costumava trocar o figurino num breve intervalo no meio do espetáculo. Saía de cena, enquanto o show ficava apenas com o instrumental, e mudava os trajes (invariavelmente vestidos longos), sapatos e jóias. Quando retornava, estava sempre ainda mais brilhante, com um largo sorriso nos lábios. Dava a impressão de que absorvia o espanto da platéia e isso lhe fazia bem.
Sérgio Cabral escreveu uma biografia sobre a cantora. Ele conta uma passagem ocorrida numa casa de praia de um amigo. Para lá tinham ido várias pessoas, e como todos foram dormir muito tarde, foram acordando aos poucos no dia seguinte. O dono da casa foi o primeiro a levantar, mas não desceu para o térreo. Sentou-se na escada que levava ao térreo.
Sucessivamente os convidados foram fazendo a mesma coisa e ali ficaram, quedados pela emoção ao ver uma distraída Elizeth de vassoura na mão, varrendo a casa e cantando. Apesar da fama e do respeito que sempre a cercaram, até falecer vítima de câncer no pulmão (gravemente enferma cantava Todo Sentimento, de Chico Buarque, e chorava), não tomou para si o título (mais um) que um fã tentou lhe dar de a maior cantora do Brasil.
Ela tinha saído do Cemitério do Morumbi, em São Paulo, onde está enterrada Elis Regina. Elizeth apontou para o cemitério: Ela foi melhor que eu. Por essas e outras é muito difícil uma pessoa fazer jus ao título de Divina.
qElizeth Cardoso, a Divina, Nascida para Cantar - Programa especial da Rádio Educativa FM 97.1, em homenagem aos 77 anos de nascimento da cantora. Dia 16 de julho, às 13h30, com reprise no domingo, dia 20, às 13h30. Duração do programa: 60 minutos.


