A diversidade volta à passarela, 20 anos depois
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segunda-feira, 19 de agosto de 2002
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Alta, loira, simpática, bem articulada e um sorriso que parece não se desmanchar por nada desse mundo. Ah, sim, um corpo escultural, daqueles que mexem com o juízo de qualquer homem. Não leu ''O Pequeno Príncipe'', mas em compensação é ciente de seus direitos, deveres e da luta por uma sociedade mais justa e igualitária. Seu prato preferido é lasanha, quer conhecer a Europa e o sonho maior é chegar à perfeição em todos os sentidos. Define-se como uma pessoa decidida, com opiniões próprias e não teme desafios. Adora receber carinhos. Tem 22 aninhos e 70 quilos bem distribuídos em 1,78 de altura. Chama-se Melissa Campus e é a mais nova Miss Londrina 2002. Ou melhor, ela é a Miss Londrina Travesti Londrina 2002. O concurso foi realizado pela Adé Fidan/Casa de Vivência Saara Santana em parceira com a Sercomtel e Secretaria Municipal de Cultura.
A faixa, disputada por seis concorrentes, foi entregue no último sábado, diante de um público pequeno mas bastante interessado e respeitoso com a causa GLS. Apesar dos atributos estéticos, Melissa Campus precisou disputar o título de Miss Londrina Travesti 2002 com outra forte e belíssima candidata: Natasha Rios. É que na soma dos pontos da comissão julgadora, as duas candidatas empataram. E o desempate, acabou sendo decidido também pelo júri desta vez levando em conta a desenvoltura verbal. E talvez seja nesse quesito que Melissa se saiu muito bem. Em seu breve discurso, ela lembrou que o preconceito contra o travesti precisa ser derrubado e que a sociedade precisa aceitar a diversidade sexual. Foi aplaudidíssima. Levou a faixa, coroa, um buquê de rosas e um kit com perfumes como prêmios máximos.
Emocionada com o título que vai ostentar em concursos similares Brasil afora, Melissa só se esqueceu de um detalhe importante: verter algumas lágrimas como fazem as misses. Em compensação, saraivou o público com beijinhos, sorrisos, tchauzinhos. Envergou todo o orgulho, principalmente para a torcida. ''É uma emoção muito boa. É um sonho que realizei. Qualquer mulher gostaria de passar por esse momento de glamour'', declarou.
O último concurso oficial, de acordo com Edson Bezerra, coordenador Geral da Adé Fidan ''Casa de Vivência Saara Santana'', aconteceu em 82. Na ocasião a eleita foi Minibi Ballesteiros, ou seja, o próprio Edson Bezerra que deixou de ser travesti há quase 15 anos, para se engajar na luta pelos direitos de gays, lésbicas e travestis. Para passar a faixa a Melissa, foi escolhida Bruna Rogéria.
Melissa Campus nasceu no dia 3 de setembro de 1979. Não revela seu verdadeiro nome. ''A família aceita minha opção, mas não digo meu nome e sobrenome porque pode complicar'', disse misteriosa. Para chegar a esse mulherão ela é travesti há sete anos , algumas transformações foram necessárias. Além de hormônios, recorreu à cirurgia plástica nos lábios e nariz e implantou próteses de silicone são 360 mg em cada seio.
Ela tem namorado. E tem também participação ativa na luta pelos direitos dos travestis, ao ponto de se engajar nos trabalhos desenvolvidos pela Adé-Fidan. Hoje diz que ''raramente'' atua como profissional do sexo. ''O preconceito sempre vai nos acompanhar. Lutamos para mudar esse quadro porque na sociedade, se você sai da linha tradicional de conduta, fica estigmatizado'', analisa. Uma de suas aspirações é estudar mais e ter uma profissão definida. ''Acho que levo jeito para psicóloga'', diz.
O resultado do concurso, realizado na Casa de Show Espaço Cultural Afro-descendente Casa Nova, parece ter agradado às demais concorrentes. ''Foi justo. Para mim, o empate já foi importante'', disse Natasha Rios, uma morena do tipo ''arrasa-quarteirão''. Ela, de 21 anos de idade, ostentou também a faixa de Miss Simpatia. A terceira colocada, Paula Fernandes, 19 anos e igualmente bonita, aceitou a terceira colocação mas fez uma ressalva. ''Acho que roubaram a faixa de mim'', disse bem-humorada.


