Longe dos flashes, o Festival de Cannes parece um formigueiro onde milhares de operários se movem em todas as direções trabalhando pelo bem da coletividade cinematográfica. Uma das jornadas mais significativas aconteceu quarta-feira sob o signo da ‘‘transmissão’’, termo um tanto vago que deixa entender que o conhecimento, o talento ou a experiência podem representar um papel educativo e devem ser transmitidos às jovens gerações. As muitas personalidades convidadas para este colóquio, entre outros os diretores Francesco Rosi, Volker Schlondorff, James Gray, Jean Charles Tachella, André Delvaux, Agnés Varda e Samira Makhmalbaf, assistiram em seguida à tradicional ‘‘lição de cinema’’, este ano a cargo do cineasta Wong Kar-Wai, de Hong Kong.
O cineasta de ‘‘In The Mood for Love’’ privilegiou as virtudes da experiência, afirmando que não tinha cursado nenhuma escola de cinema e que trabalha de maneira pragmática. Disse ainda que é muito difícil transmitir suas próprias intuições. E apenas um conselho: ver filmes de qualquer espécie, bons ou ruins. Outro conselho partiu do escritor e roteirista Jean-Claude Carriere, colaborador, entre muitos outros, de Luis Buñuel. Ele insistiu no fato de que ‘‘o cinema deve criar mecanismos que garantam a transmissão, a fim de que não se perca nada do que foi inventado’’. Por sua vez, a ministra da Cultura da França, Catherine Tasca, afirmou que ‘‘se o cinema preserva uma grande vitalidade é porque ele se nutre de sua história’’.
A dois dias do encerramento, o Festival de Cannes pode ter encontrado outro potencial candidato a Palma de Ouro, depois de ‘‘Vou Para Casa’’, de Manoel de Oliveira. ‘‘La Stanza del Figlio’’, o filme mais aplaudido até aqui, chega à mostra competitiva credenciado por muitos elogios e por uma calorosa recepção dos críticos e do público da Itália, onde foi lançado em março. ‘‘O Quarto do Filho’’, sobre família italiana classe média que de repente se vê envolvida pela dor com a morte trágica de um dos membros, marca uma reviralvolta na carreira do realizador Nanni Moretti, que abandona a primeira pessoa de obras semi-autobiográficas (‘‘Caro Diário’’, ‘‘Aprile’’) e parte para a ficção pura. O resultado é não menos que brilhante, merecendo cada aplauso – e cada lágrima.
Dos 20 filmes da mostra competitiva exibidos até aqui, a morte está presente na maioria não apenas como circunstância, mas como elemento essencial nos argumentos – o japonês ‘‘Distance’’, o iraniano ‘‘Kandahar’’, o espanhol ‘‘Pau i el seu Germᒒ, os americanos ‘‘The Man Who Wasn’t Here’’ e ‘‘The Pledge’’. Em ‘‘Taurus’’, do russo Alexandre Sokurov, que concorre pela Rússia, a única coisa que pode libertar Lenine da humilhante imobilidade imposta pela doença é a morte.
Uma radiografia a seco, quase um semi-documentário a sangue frio. Assim é ‘‘Roberto Succo’’. Essencialmente baseado em fatos reais, o filme reconstitui os últimos anos da vida criminosa do personagem-título. Succo, nascido em Veneza-Mestre, aos 19 anos, sem qualquer motivo, matou o pai e a mãe.
Dois anos depois de mostrar aqui outro injustiçado, ‘‘The Straight Story’’, que marcou uma guinada em sua carreira, David Lynch retoma o caminho que trilhou a partir de ‘‘Veludo Azul’’, passando pelos cults ‘‘Coração Selvagem’’ (Palma de Ouro em 1990), ‘‘Twin Peaks’’(92) e a própria ‘‘Estrada Perdida’’(97). O pesadelo recomeça, com amnésia, troca de identidades, um mundo aparentemente real misturado a um universo onírico, personagens que não são jamais o que parecem.
O cineasta da solidão, o taiwanês Tsai Ming Liang, está de novo em seu território preferido em ‘‘Ni Nei Pien Chi Tien’’, alguma coisa como ‘‘E Lá, Que Horas São?’’, uma história tão minimalista quanto seus filmes anteriores, especialmente ‘‘Viva o Amor’’, ‘‘O Rio’’ e ‘‘O Buraco’’. A morte do pai e o encontro casual com uma jovem por quem se apaixona vão mudar a vida de um camelô que vende relógios nas ruas de Taipei.
E os ‘‘Cahiers du Cinema’’ têm mesmo motivos para comemorar 50 anos. Depois da volta por cima de Godard, quem reaparece em boa forma é outro dos fundadores da nouvelle-vague, Jacques Rivette, 73 anos. ‘‘Va Savoir’’ (‘‘Quem Sabe?’’ é uma tradução razoável) é nova oportunidade para Rivette voltar à outras artes como fonte de inspiração, como o teatro (‘‘A Religiosa’’, 67) e a pintura (‘‘La Belle Noiseuse’’, 91). Mas é ao palco que ele retorna agora com uma companhia que encena Pirandello. Fora do palco, os atores buscam se acertar afetiva e existencialmente, numa espécie de roda do destino onde todos procuram seus parceiros ideiais e acabam ficando com aqueles que provavelmente merecem.
Ermanno Olmi, 69 anos, principal herdeiro do neo-realismo italiano e Palma de Ouro em 78 com ‘‘A Árvore dos Tamancos’’, volta no tempo e reconstitui a Idade Média às vésperas da Renascença para contar a história de uma carreira e de uma morte prematura em ‘‘Il Mestiere Delle Armi’’.
E na série de pequenos escândalos do festival, o que parece mais ter incomodado é ‘‘La Pianiste’’, do austríaco Michael Hannecke. O filme habilita Isabelle Huppert ao troféu de melhor atriz, até aqui brigando diretamente com outras duas francesas (Jeanne Balibar e Sabine Azéma) e com a italiana Laura Morante. Huppert faz a professora de piano do título, quarentona, dominada pela mãe possessiva e tirânica (Annie Girardot, muito envelhecida e quase irreconhecível mas em grande forma). De dia, aulas no conservatório. À noite, incursões furtivas a pornoshops para descarregar paixões perversas, com extensão a voyeurismo em drive-ins e pequenas mutilações na banheira de casa.

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