A diversidade dá o tom em Cannes
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de maio de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Cannes Especial para a Folha 2 
Longe dos flashes, o Festival de Cannes parece um formigueiro onde milhares de operários se movem em todas as direções trabalhando pelo bem da coletividade cinematográfica. Uma das jornadas mais significativas aconteceu quarta-feira sob o signo da transmissão, termo um tanto vago que deixa entender que o conhecimento, o talento ou a experiência podem representar um papel educativo e devem ser transmitidos às jovens gerações. As muitas personalidades convidadas para este colóquio, entre outros os diretores Francesco Rosi, Volker Schlondorff, James Gray, Jean Charles Tachella, André Delvaux, Agnés Varda e Samira Makhmalbaf, assistiram em seguida à tradicional lição de cinema, este ano a cargo do cineasta Wong Kar-Wai, de Hong Kong.
O cineasta de In The Mood for Love privilegiou as virtudes da experiência, afirmando que não tinha cursado nenhuma escola de cinema e que trabalha de maneira pragmática. Disse ainda que é muito difícil transmitir suas próprias intuições. E apenas um conselho: ver filmes de qualquer espécie, bons ou ruins. Outro conselho partiu do escritor e roteirista Jean-Claude Carriere, colaborador, entre muitos outros, de Luis Buñuel. Ele insistiu no fato de que o cinema deve criar mecanismos que garantam a transmissão, a fim de que não se perca nada do que foi inventado. Por sua vez, a ministra da Cultura da França, Catherine Tasca, afirmou que se o cinema preserva uma grande vitalidade é porque ele se nutre de sua história.
A dois dias do encerramento, o Festival de Cannes pode ter encontrado outro potencial candidato a Palma de Ouro, depois de Vou Para Casa, de Manoel de Oliveira. La Stanza del Figlio, o filme mais aplaudido até aqui, chega à mostra competitiva credenciado por muitos elogios e por uma calorosa recepção dos críticos e do público da Itália, onde foi lançado em março. O Quarto do Filho, sobre família italiana classe média que de repente se vê envolvida pela dor com a morte trágica de um dos membros, marca uma reviralvolta na carreira do realizador Nanni Moretti, que abandona a primeira pessoa de obras semi-autobiográficas (Caro Diário, Aprile) e parte para a ficção pura. O resultado é não menos que brilhante, merecendo cada aplauso e cada lágrima.
Dos 20 filmes da mostra competitiva exibidos até aqui, a morte está presente na maioria não apenas como circunstância, mas como elemento essencial nos argumentos o japonês Distance, o iraniano Kandahar, o espanhol Pau i el seu Germá, os americanos The Man Who Wasnt Here e The Pledge. Em Taurus, do russo Alexandre Sokurov, que concorre pela Rússia, a única coisa que pode libertar Lenine da humilhante imobilidade imposta pela doença é a morte.
Uma radiografia a seco, quase um semi-documentário a sangue frio. Assim é Roberto Succo. Essencialmente baseado em fatos reais, o filme reconstitui os últimos anos da vida criminosa do personagem-título. Succo, nascido em Veneza-Mestre, aos 19 anos, sem qualquer motivo, matou o pai e a mãe.
Dois anos depois de mostrar aqui outro injustiçado, The Straight Story, que marcou uma guinada em sua carreira, David Lynch retoma o caminho que trilhou a partir de Veludo Azul, passando pelos cults Coração Selvagem (Palma de Ouro em 1990), Twin Peaks(92) e a própria Estrada Perdida(97). O pesadelo recomeça, com amnésia, troca de identidades, um mundo aparentemente real misturado a um universo onírico, personagens que não são jamais o que parecem.
O cineasta da solidão, o taiwanês Tsai Ming Liang, está de novo em seu território preferido em Ni Nei Pien Chi Tien, alguma coisa como E Lá, Que Horas São?, uma história tão minimalista quanto seus filmes anteriores, especialmente Viva o Amor, O Rio e O Buraco. A morte do pai e o encontro casual com uma jovem por quem se apaixona vão mudar a vida de um camelô que vende relógios nas ruas de Taipei.
E os Cahiers du Cinema têm mesmo motivos para comemorar 50 anos. Depois da volta por cima de Godard, quem reaparece em boa forma é outro dos fundadores da nouvelle-vague, Jacques Rivette, 73 anos. Va Savoir (Quem Sabe? é uma tradução razoável) é nova oportunidade para Rivette voltar à outras artes como fonte de inspiração, como o teatro (A Religiosa, 67) e a pintura (La Belle Noiseuse, 91). Mas é ao palco que ele retorna agora com uma companhia que encena Pirandello. Fora do palco, os atores buscam se acertar afetiva e existencialmente, numa espécie de roda do destino onde todos procuram seus parceiros ideiais e acabam ficando com aqueles que provavelmente merecem.
Ermanno Olmi, 69 anos, principal herdeiro do neo-realismo italiano e Palma de Ouro em 78 com A Árvore dos Tamancos, volta no tempo e reconstitui a Idade Média às vésperas da Renascença para contar a história de uma carreira e de uma morte prematura em Il Mestiere Delle Armi.
E na série de pequenos escândalos do festival, o que parece mais ter incomodado é La Pianiste, do austríaco Michael Hannecke. O filme habilita Isabelle Huppert ao troféu de melhor atriz, até aqui brigando diretamente com outras duas francesas (Jeanne Balibar e Sabine Azéma) e com a italiana Laura Morante. Huppert faz a professora de piano do título, quarentona, dominada pela mãe possessiva e tirânica (Annie Girardot, muito envelhecida e quase irreconhecível mas em grande forma). De dia, aulas no conservatório. À noite, incursões furtivas a pornoshops para descarregar paixões perversas, com extensão a voyeurismo em drive-ins e pequenas mutilações na banheira de casa.


