Os boêmios não precisavam rodar muito pela terra batida atrás de diversão. Podia-se até frequentar bailes nos clubes sociais, mas as escapadas de fim de noite acabavam sempre na Vila Matos, a zona do meretrício de Londrina.
Ali, do fim dos anos 40 a meados da década de 60, a cidade viveu o apogeu da prostituição. O local, que passaria a abrigar posteriormente a rodoviária, acompanhou o auge da cafeicultura na região, transformando-se numa das mais concorridas mecas brasileiras do prazer.
A fama incentivou todo um surto migratório de mulheres, gigolôs e cafetinas para a cidade. Há estimativas de que, num certo período, as casas de tolerância chegaram a abrigar cinco mil garotas em seus aposentos. Figurões locais batiam cartão nos bordéis com a inocência de quem ia à casa do vizinho.
Grã-finos de outras praças desembarcavam de táxis aéreos e aviões de carreira seguindo depois rumo aos inferninhos de luxo. A elite boêmia dispunha ainda de um privilégio extra: a recepção, no aeroporto da cidade, do que ficou conhecido como ''balaio''. Esse era o apelido dado ao avião que trazia periodicamente a Londrina um carregamento especial de mulheres.
Na época, o ''balaio'' se tornaria uma tradição entre os boêmios locais. Acolher as novas e desconhecidas belas da noite funcionava como uma preliminar erótica, prelúdio para o que aconteceria logo mais na alcova. No vaivém de meninas, circulavam beldades de São Paulo, Rio de Janeiro e também do Uruguai e da Argentina.
Na boate Diana, considerada um ''mito'' da noite de Londrina, alguns frequentadores não mediam gastos, dando-se ao luxo de fechá-la por dois ou três dias para uso exclusivo. Mas além de sexo, o quadrilátero oferecia outros atrativos para a clientela, abrangendo bares, restaurantes, gafieiras, dancings, salões de bilhar, casas de loterias, barbeiros e salão de cabeleireiros.
''Era um boulevard, não era apenas um centro de prostituição'' diz o jornalista Walmor Macarini. ''As pessoas iam se distrair, conversar. O ambiente era cintilante, bonito. Todos passavam por lá. Era um hábito de políticos, empresários, fazendeiros e comerciantes. Muitos negócios foram fechados ali a partir de uma rodada de uísque''.
As festas da colheita do café também eram comemoradas na zona. Enquanto os patrões brindavam nos bordéis mais seletos, os trabalhadores faziam o mesmo nas casas mais baratas. O cantor romântico Roberto Luna, amante de uma das poderosas cafetinas da cidade, era presença constante nas boates. Costumava interpretar ''El dia que me Quieras'' ajoelhado na frente das mulheres.
Nelson Gonçalves, Angela Maria, Silvio Caldas, Cauby Peixoto, Isaura Garcia, Carlos Galhardo, Linda e Dircinha Batista constituíam a lista de astros e estrelas da música popular das décadas de 40 e 50 que vez ou outra davam o ar da graça. ''Eles vinham na sexta-feira, passavam todo o fim de semana aqui e só decolavam na segunda-feira. Alguns se apresentavam no restaurante do Toninho em troca da famosa canja de seu cardápio'' lembra o jornalista Carlos Silva, 69 anos.
Muitos artistas vinham se apresentar nos clubes tradicionais para em seguida mergulhar na madrugada sob os refletores dos cabarés. Em outras ocasiões faziam shows exclusivamente para a platéia das boates. Não era incomum dançar nos salões ao som ao vivo das orquestras de Francisco Canaro, Caló, Darienzo e Harpas Paraguaias.
Também as vedetes do teatro de revista, com seus shows eróticos e de chanchada, apresentavam-se frequentemente nas casas da zona. É o caso de Luz del Fuego, célebre na década de 50 por protagonizar shows de strip-tease enrolada em cobras. Diz a lenda que ela teria sido leiloada após um show na boate Colonial. O prêmio do leilão seria, evidentemente, uma noite de prazeres com a dançarina. Sem a cobra no meio.
A variedade de atrações artísticas consolidou a fama de casas como as de Selma, Diana e Laura. Entre as mais procuradas pela clientela vip figuravam ainda a Boate Paris, Danúbio Azul, Refúgio e a de Maria Polaca. No dia 9 de janeiro de 1966, o quadrilátero do amor foi fechado pelo poder público municipal. O objetivo, segundo declararam as autoridades, era reurbanizá-lo e transformá-lo em um bairro residencial.

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