A ditadura do Ibope
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quinta-feira, 17 de julho de 1997
Fábio Dobbs TV Press 
Arionauro/Carta Z NotíciasDiretores e apresentadores de várias emissoras estão desenvolvendo uma obsessão em comum. A culpa é de 600 aparelhos, espalhados pela Grande São Paulo, que enviam informações sobre a audiência dos programas em tempo real, minuto a minuto. Por causa do Ibope instantâneo, já mudamos o quadro em que satirizamos a novela para o primeiro bloco do programa, admite Marcelo Madureira, do Casseta & Planeta, Urgente!. Os dados do Ibope instantâneo estão transformando os responsáveis pelos programas em verdadeiros jogadores de videogame. Vale tudo na luta por uma pontuação maior.
Consegui minha maior audiência, 10 pontos, com a Roberta Miranda, comemora a diretora do programa Ana Maria Braga, Lú Barbosa. A dança dos números acaba transformando artistas em cobaias e define a permanência deles no ar. Posso tirar o cantor do palco se ele provocar a queda de audiência, admite a diretora. A elevação do Ibope na apresentação de Roberta Miranda fez com que o telespectador tivesse de aturar três músicas seguidas da cantora.
Enquanto nos videogames a pontuação se traduz em pontos e bonificações, no jogo do Ibope um aumento de audiência pode significar mais patrocinadores. O Ibope governa tudo na tevê comercial, analisa Nelson Hoineff, diretor do programa Realidade, que estreou em junho na Band.
Os números podem até definir a roupa da apresentadora. Como aconteceu com Cristina Rocha, do programa Alô Cristina, que foi aconselhada por Sílvio Santos a gravar sempre de saias curtas para aumentar a audiência. Cristina desmente a história. Toda imprensa publicou, mas isso não é verdade, assegura. Cristina admite, no entanto, que é natural que o público tenha curiosidade em ver suas pernas, que estavam sempre escondidas quando apresentava o Aqui Agora. Estou com 37 anos e faço muito exercício, diz Cristina.
Há aqueles, no entanto, que se recusam a deixar-se dominar pelos índices de audiência. Jogo o boletim do Ibope no lixo, afirma Diléia Frate, diretora do Jô Soares Onze e Meia. Diléia despreza a guerra da audiência, que obriga os programas a modificar seus quadros e atrações. É uma guerra imbecil, que nunca governou meu programa, enfatiza.
A estratégia de Diléia para garantir os 14 pontos de audiência, além de contar com a popularidade de Jô Soares, é investir na qualidade e analisar o retorno do público via e-mail e telefonemas. O Ibope só serve para nivelar por baixo os programas, constata. Esse nivelamento se reflete na falta de qualidade da tevê aberta, que está perdendo o público com um nível sócio-econômico mais elevado para as tevês a cabo.
Pioneiro do Ibope - Para o diretor do programa Domingo Legal, Osmar Salles, a questão do Ibope é muito mais séria do que um par de pernas ou uma cantora popular. É preciso muito tempo para aprender a ler os números, enfatiza. Completamente viciado, o diretor segue religiosamente o Ibope instantâneo e se gaba de ser um dos pioneiros a utilizar o método.
Cheio de segredos e com medo de deixar escapar algo sobre a sua tão bem guardada técnica, que parece já ser usada pela maioria dos programas, Osmar Salles exagera: Falar sobre o Ibope instantâneo é como perguntar a Beethoven o melhor arranjo para uma sinfonia. Segundo o diretor, o mesmo cantor pode aumentar ou diminuir a audiência em dias diferentes.
Enquanto Osmar Salles exalta a eficiência do Ibope instantâneo, Nelson Hoineff não acha o método um eficaz determinante de audiência. O Ibope instantâneo não representa o público cativo do programa, acredita Nelson. A alteração na audiência pode ter acontecido apenas porque o telespectador mudou de canal e parou por um minuto no programa. Apesar de não acreditar muito no Ibope instantâneo, o diretor não foge do perfil daqueles que deixam os índices de audiência governarem. Mesmo que isso signifique alterar a estrutura do programa.


