Arionauro/Carta Z NotíciasDiretores e apresentadores de várias emissoras estão desenvolvendo uma obsessão em comum. A culpa é de 600 aparelhos, espalhados pela Grande São Paulo, que enviam informações sobre a audiência dos programas em tempo real, minuto a minuto. ‘‘Por causa do Ibope instantâneo, já mudamos o quadro em que satirizamos a novela para o primeiro bloco do programa’’, admite Marcelo Madureira, do ‘‘Casseta & Planeta, Urgente!’’. Os dados do Ibope instantâneo estão transformando os responsáveis pelos programas em verdadeiros jogadores de videogame. Vale tudo na luta por uma pontuação maior.
‘‘Consegui minha maior audiência, 10 pontos, com a Roberta Miranda’’, comemora a diretora do programa Ana Maria Braga, Lú Barbosa. A dança dos números acaba transformando artistas em cobaias e define a permanência deles no ar. ‘‘Posso tirar o cantor do palco se ele provocar a queda de audiência’’, admite a diretora. A elevação do Ibope na apresentação de Roberta Miranda fez com que o telespectador tivesse de aturar três músicas seguidas da cantora.
Enquanto nos videogames a pontuação se traduz em pontos e bonificações, no jogo do Ibope um aumento de audiência pode significar mais patrocinadores. ‘‘O Ibope governa tudo na tevê comercial’’, analisa Nelson Hoineff, diretor do programa ‘‘Realidade’’, que estreou em junho na Band.
Os números podem até definir a roupa da apresentadora. Como aconteceu com Cristina Rocha, do programa ‘‘Alô Cristina’’, que foi aconselhada por Sílvio Santos a gravar sempre de saias curtas para aumentar a audiência. Cristina desmente a história. ‘‘Toda imprensa publicou, mas isso não é verdade’’, assegura. Cristina admite, no entanto, que é natural que o público tenha curiosidade em ver suas pernas, que estavam sempre escondidas quando apresentava o ‘‘Aqui Agora’’. ‘‘Estou com 37 anos e faço muito exercício’’, diz Cristina.
Há aqueles, no entanto, que se recusam a deixar-se dominar pelos índices de audiência. ‘‘Jogo o boletim do Ibope no lixo’’, afirma Diléia Frate, diretora do ‘‘Jô Soares Onze e Meia’’. Diléia despreza a guerra da audiência, que obriga os programas a modificar seus quadros e atrações. ‘‘É uma guerra imbecil, que nunca governou meu programa’’, enfatiza.
A estratégia de Diléia para garantir os 14 pontos de audiência, além de contar com a popularidade de Jô Soares, é investir na qualidade e analisar o retorno do público via e-mail e telefonemas. ‘‘O Ibope só serve para nivelar por baixo os programas’’, constata. Esse nivelamento se reflete na falta de qualidade da tevê aberta, que está perdendo o público com um nível sócio-econômico mais elevado para as tevês a cabo.
Pioneiro do Ibope - Para o diretor do programa ‘‘Domingo Legal’’, Osmar Salles, a questão do Ibope é muito mais séria do que um par de pernas ou uma cantora popular. ‘‘É preciso muito tempo para aprender a ler os números’’, enfatiza. Completamente viciado, o diretor segue religiosamente o Ibope instantâneo e se gaba de ser um dos pioneiros a utilizar o método.
Cheio de segredos e com medo de deixar escapar algo sobre a sua tão bem guardada técnica, que parece já ser usada pela maioria dos programas, Osmar Salles exagera: ‘‘Falar sobre o Ibope instantâneo é como perguntar a Beethoven o melhor arranjo para uma sinfonia’’. Segundo o diretor, o mesmo cantor pode aumentar ou diminuir a audiência em dias diferentes.
Enquanto Osmar Salles exalta a eficiência do Ibope instantâneo, Nelson Hoineff não acha o método um eficaz determinante de audiência. ‘‘O Ibope instantâneo não representa o público cativo do programa’’, acredita Nelson. A alteração na audiência pode ter acontecido apenas porque o telespectador mudou de canal e parou por um minuto no programa. Apesar de não acreditar muito no Ibope instantâneo, o diretor não foge do perfil daqueles que deixam os índices de audiência governarem. Mesmo que isso signifique alterar a estrutura do programa.

mockup