A discreta volta de Cimino
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terça-feira, 10 de junho de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
ReproduçãoCena de Na Trilha do Sol, do diretor Michael Cimino, que chega
às locadorasJá se tem notícia, afinal, do que foi feito de Michael Cimino. Depois de seis anos de ausência, o cineasta do inesquecível O Franco Atirador(78) reaparece com um road-movie de iniciação, Na Trilha do Sol (Sunchaser , 96). Não é muito, tratando-se de quem é. Mas também não é de se jogar fora, diante do peso da maldição.
Imagine-se o que é isso, liquidar da noite para o dia um estúdio inteiro, não um estúdio qualquer, mas a gloriosa, mítica United Artists, um dos grandes de Hollywood, fundada em 1917 pelo trio Chaplin-Fairbanks-Mary Pickford. A causa da derrocada: o formidável estouro orçamentário da mega-produção O Portal do Paraíso (Heavens Gate) e a mais imediata e desastrosa bilheteria da história do show-business cinematográfico.
Marcado pela falência da própria ousadia, o roteirista e diretor Michael Cimino, que tanto prazer tinha causado com sua expressiva visão da guerra do Vietnam e com a impecável construção de um minucioso afresco da sociedade norte-americana em O Franco Atirador, recolheu-se para o que se acredita tenha sido um processo de auto-expiação.
Em 85, cinco anos após este desastre histórico (mas não artístico: O Portal do Paraíso, exibido seriamente mutilado em todo o mundo, inclusive em Cannes-81, é um dos filmes mais subestimados, e é um épico extraordinário em sua versão integral de 225 minutos), Cimino reapareceu com um fascinante thriller , O Ano do Dragão, incapaz, no entanto, de devolver-lhe a autonomia perdida. Dois anos depois, O Siciliano, cinebiografia do legendário bandido italiano Salvatore Giuliano, é uma pálida e distante cópia do clássico de Francesco Rosi. E a refilmagem de Horas de Desespero da mesma forma não honrou o modelo original de William Wyler.
A história Road-movie , Na Trilha do Sol é a história de um adolescente de 16 anos, o mestiço de índio navajo Blue (John Seda, de Os 12 Macacos), menor infrator de alta periculosidade que está em prisão dupla: atrás das grades porque matou o pai que batia na madrasta; e doente terminal vítima de um câncer já em estágio irreversível. É também a história do médico Michael Reynolds (Woody Harrelson), pediatra especialista em oncologia. Ele joga no mesmo time dos frívolos, vaidosos, ambiciosos e auto-suficientes William Hurt ( Golpe do Destino) e Harrison Ford (Uma Segunda Chance). De olho na carreira e no acúmulo de bens materiais, o mauricinho Dr. Reynolds vai a contragosto examinar o atormentado garoto doente terminal, que se aproveita de um descuido da escolta policial para fugir levando o médico como refém. O destino são as montanhas do Colorado onde, segundo antiga lenda indígena, existe um lago escondido com propriedades milagrosas de cura.
Não há muita novidade na linha dramática do roteiro, que é bom que se diga, não é de Cimino: sensíveis algumas omissões e uma certa tendência à banalidade. Há a clássica oposição entre dois homens vindos de mundos diferentes - a princípio se detestam, depois se toleram à medida em que vão se conhecendo melhor e acabam afetivamente muito próximos.
Impossível não sentir a mão um pouco pesada do roteirista Charles Leavitt quando insiste em metaforisar o embate entre sociedade urbana e natureza, Reynolds e Blue. Presente também o tema do aprendizado (além da amplitude dos grandes espaços abertos) e da segunda chance, o que aproxima Na Trilha do Sol dos cânones do western tradicional. E algumas belas sequências, como a cavalgada dos Navajos em paralelo com o carro da dupla em louca disparada. A solução final, sentimentalóide e apressada, é um problema considerável.
O que Na Trilha do Sol acaba deixando transparecer é a delicada situação de Michael Cimino, alguém que ainda parece não ter muitas possibilidades de ser exigente numa Hollywood que o enxerga como portador da peste negra. E não há nada a fazer senão torcer para que ao cineasta seja devolvida a autonomia de filmar seus próprios roteiros.


