Ranulfo Pedreiro
Na onda de saudosismo que assola o fim do século, a Universal lança um pacote reunindo artistas que faziam sucesso nos anos 70 e andam esquecidos pelas gravadoras. Para dar um tempero, há uma associação em tom de homenagem com Chacrinha, uma espécie de pretexto para explicar a junção de vários cantores com a carreira em baixa - salvo raras exceções.
A caixa ‘‘A Discoteca do Chacrinha’’ é um conjunto de obras desenterradas - divididas em seis CDs - e mostra como a indústria fonográfica ainda engatinhava nos anos 70 na tentativa de fabricar ondas de sucesso. O resultado se vê hoje, quando os gêneros que comandam o mercado são substituídos com certa facilidade, após o desgaste da superexposição.
O pessoal da época também fez bastante sucesso, e, como acontece com frequência, foi esquecido. Hoje fora do primeiro escalão, a maioria desses intérpretes ficou à margem do corre-corre milionário que se tornou o mercado fonográfico brasileiro.
Os motivos são vários e começam pelas composições restritas a temáticas um tanto ingênuas para a atualidade, que ficaram aprisionadas aos anos 70 e foram vencidas pelo tempo. Há também forte inclinação ao que hoje se considera brega. Muitas sonoridades e interpretações são datadas. É lógico que, no meio de tantos nomes, há aqueles que sobrevivem e demonstram qualidade.
Essa turma quer agora sacudir a poeira e ganhar um lugar ao sol. Reunidos sob o manto do Velho Guerreiro estão nomes como Agnaldo Timóteo, Odair José, Genival Lacerda, Almir Rogério, Nalva Aguiar, César Sampaio, Waldick Soriano, Cláudia Telles, Sidney Magal, The Fevers, Gretchen, Perla, Angelo Máximo, Vanusa, Gilson, Moacyr Franco, Paulo Diniz, Jerry Adriani, Originais do Samba, Jane & Herondy, Lilian, Amado Batista e outros.
O repertório traz faixas de gosto para lá de duvidoso, como ‘‘Sorria, Sorria’’, com Agnaldo Timóteo; ‘‘Fuscão Preto’’, com Almir Rogério; ‘‘Eu Não Sou Cachorro Não’’, com Waldick Soriano; ‘‘A Cigana Sandra Rosa Madalena’’, com Sidney Magal’’; ‘‘Freak Le Boom Boom’’, com Gretchen; ‘‘Pequenina’’, com Perla; ‘‘Não se Vᒒ, com Jane & Herondi; ‘‘Cadeira de Rodas’’, com Fernando Mendes; e ‘‘Sou Rebelde’’, com Lilian.
Mas há surpresas interessantes. ‘‘Severina Xique Xique’’, de Genival Lacerda, é um bom forró e passa longe da pasteurização que hoje abate o gênero. Peninha aparece com ‘‘Sonhos’’, que ficou melhor na versão de Caetano Veloso. Paulo Diniz entra pelo soul/balanço com ‘‘Quero Voltar pra Bahia’’ e ‘‘Pingos de Amor’’, regravada recentemente por Paula Toller. A batida ‘‘Retalhos de Cetim’’, de Benito de Paula, ganhou versão de Jair Rodrigues. Já ‘‘Charlie Brown’’, outra boa música de Benito de Paula, foi regravada por Bebeto. Os Originais do Samba comparecem com ‘‘Esperanças Perdidas’’; Gilson com ‘‘Pôxa’’ e Luiz Ayrão vai de ‘‘Porta Aberta’’. Ataulfo Alves Jr. regravou o bom samba ‘‘Os Meninos da Mangueira’’, outro sucesso daqueles tempos.
O problema é que as faixas ganharam versões atualizadas, e muitas não foram regravadas pelos intérpretes originais - ‘‘Frevo Mulher’’, cantada por Amelinha, agora é tocada pela banda Capital do Sol. Alguns nomes que morreram foram substituídos: Antonio Marcos deu lugar a Chitãozinho & Xororó em ‘‘O Homem de Nazar钒 e Antonio Carlos & Jocafi tocam ‘‘Menina de Cabelos Longos’’, sucesso de Agepê.
Outros habitués do programa, como Dudu França, Sílvio Britto, Silvio César, Roberto Leal - estranhamente substituído pelos Fevers em ‘‘Arrebita’’ -, Renato e Seus Blue Caps, Wilson Simonal, Gilliard - trocado por Wanderley Cardoso em ‘‘Aquela Nuvem’’ - e Márcio Greyk - substituído por Jerry Adriani em ‘‘Impossível Acreditar que Perdi Voc꒒ - ficaram de fora. Mauro Celso, que estourou com ‘‘Farofa-Fᒒ e ‘‘Bilu Tetéia’’, ganhou interpretação de Sérgio Malandro.
O lançamento também esquece de artistas consagrados que frequentavam o programa, como Roberto Carlos, Elba Ramalho, Gal Costa, Moraes Moreira, Baby Consuelo, Pepeu Gomes e muitos outros. Mas Cauby Peixoto entrou na onda interpretando ‘‘Loucura’’.
O pacote ganharia importância histórica se privilegiasse gravações originais, mas é difícil desvendar o que ocorre nos meandros dos contratos e direitos autorais. A opção por versões atualizadas mostra que muitos ainda estão na ativa e encobre os arranjos mais ultrapassados. Para completar, traz ainda um CD para karaokê. É um pacote para ser consumido com muito bom humor. Com o apelo nostálgico, deve faturar nas vendas. Mas escorrega na seriedade.A caixa de CDs ‘‘A Discoteca do Chacrinha’’ traz de volta nomes como Almir Rogério, Odair José, Waldick Soriano, Sidney Magal e Gretchen
ReproduçãoNo embalo dos anos 70, repertório que fazia a alegria do programa do Chacrinha é relançado e buzina em nossos ouvidosArquivo FolhaSidney Magal: apelo cigano em músicas como ‘‘Sandra Rosa Madalena’’Arquivo FolhaGretchen interpreta ‘‘Freak Le Boom Boom’’ e ‘‘Conga Conga Conga’’Arquivo FolhaWaldick Soriano aparece com ‘‘Eu Não Sou Cachorro Não’’

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