O que cabe num aquário, caberia muito bem num pequeno apartamento: a solidão.
Na peça ''Conjugado'', que a companhia Vértice de Teatro, do Rio de Janeiro, apresenta hoje e amanhã, às 21 horas, na Casa de Cultura (Rua Mato Grosso, 537), as metáforas são apenas indícios do que pode se tornar uma armadilha na vida de qualquer pessoa.
Principalmente para os indivíduos que vivem em grandes centros urbanos, essas armadilhas são difíceis de perceber, mas estão armadas numa série de comportamentos repetitivos.
Sempre chegar em casa, tirar o sapato e desligar o telefone com o argumento de que não quer ser incomodado pode esconder o medo de que o aparelho nunca irá tocar, uma evidência da solidão.
Através das persianas do apartamento de uma mulher jovem, bonita e independente profissionalmente, o público vê transitar pela vida da personagem uma tendência entre as pessoas que moram ou se sentem sozinhas, que são os hábitos repetitivos e que, de alguma forma, tentam disfarçar a solidão.
''Esse é um trabalho conjugado de uma pesquisa documental, que resultou num documentário, que será apresentado numa vídeo-instalação. Reúne uma série de entrevistas com pessoas que vivem sozinhas'', afirma a diretora do grupo Christiane Jatahy, responsável também pela dramaturgia do espetáculo.
''Conjugado'' estreou em 2004, em São Paulo, sendo apresentada no Rio de Janeiro, Espanha e Cuba, devendo realizar apresentações este ano em Portugal.
''Em Cuba foi interessante porque ninguém mora sozinho, sendo obrigado a morar com a família, que às vezes não quer dividir espaço. Naquele país, o público se identificou bastante com a peça'', afirma a atriz Malu Galli, que interpreta a personagem solitária.
A peça foi indicada para duas categorias do Prêmio Shell, como melhor atriz e melhor cenário, criado por Marcelo Lipiani. O cenógrafo ambienta o apartamento num cubo branco. Um aquário com um peixe é uma das metáforas da solidão.
Mas não se trata de um espetáculo que fala sobre a solidão feminina. Homens também foram entrevistados no processo de criação colaborativa. ''São pessoas que existem em qualquer cidade e que trabalham o dia inteiro, chegam em casa ligam a televisão. É um ciclo de ações repetitivas para manterem-se isoladas do mundo'', comenta Malu. Ao testemunhar pelas persianas esse enredo, o público acabará se tornando cúmplice das situações que, às vezes, pode protagonizar.

Serviço:
- Conjugado. Intérprete: Malu Galli. Direção e dramaturgia: Christiane Jatahy. Cenário: Marcelo Lipiani. Luz: Afonso Tostes. Música: Marcelo Neves. Documentário: Maria Derraik. Duração: 50 minutos.

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