A difícil caçada aos Leões
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza especial para a Folha2
A dois dias do encerramento, o 56º Festival de Veneza ainda não apresentou aquele filme que desequilibra, a obra que faz a diferença e se impõe com a autoridade artística que não deixa dúvidas. À exceção do iraniano Le Vent Nous Emportera, que é bom mas não acrescenta maiores novidades à filmografia a esta altura poeticamente monocórdica de Abbas Kiarostami, há uma larga faixa intermediária onde coabitam vícios e virtudes e para onde podem até migrar prêmios secundários. A menos que entre os quatro últimos pretendentes oficiais que desfilam hoje e amanhã esteja uma desconcertante surpresa, o Leão de Ouro dificilmente ficará na Europa ou irá para os Estados Unidos. E pelo que se ouve por aqui, muita gente se encantou com a engraçadinha e pueril bobagem oficialesca de Zhang Yimou em Nenhum a Menos, filme realista sobre educação, dinheiro, pátria, dever e obstinação, tudo segundo a camisa de força do regime de Pequim. Pena que Kubrick e Eyes Wide Shut tenham corrido por fora.
Por outro lado, o Scirocco veneziano parece soprar a favor do novo diretor do festival, Alberto Barbera. Há pelo menos uma polêmica inédita por dia. Previsíveis, quase todas, e portanto planejadas enquanto marketing estrategicamente funcional para manter elevada a temperatura da mostra. O filme de Kubrick, o sadomasoquista sul-coreano que desafia a censura do país, o bate-boca público entre Igreja e Festival, o pornô nas paralelas, o aborto em discussão, defendido no filme de Lasse Hallstrom, a subserviência de um talento como o de Zhang Yimou a um lamentável neo-realismo programático, o nepotismo que ajeitou dois descartáveis filmes italianos na faixa mais nobre da programação.
No dia-a-dia da mostra competitiva, nenhuma novidade digna de registro mais eloquente nas últimas vinte e quatro horas, a não ser que os anfitriões voltaram a decepcionar - o que paradoxalmente não chega a ser novidade. Depois de Apassionate, extremado drama della gelosia, indigesto melô-musical napolitano, a Itália assina o ponto pela segunda e última vez com A Domani.
Sem ofensa à brava gente jovem do Super-8, um argumento apropriado para figurar em certame de principiantes, tal a inconsistência, a superficialidade, a fragilidade deste longa de 100 minutos, que poderia obter resolução mais razoável em bitola de menor formato e tempo de duração limitado a no máximo 15, 20 minutos.
Dois adolescentes, irmão mais moço e irmã mais velha, Andrea e Stefania, 15 e 17 anos, moram na pequena cidade Vignola e decidem fugir, passar um fim de semana em Bolonha, a 20 quilômetros, sem o conhecimento e o consentimento dos pais. Mas de que escapam? O problema é que nada acontece. Não há conflito interno ou externo, psicológico ou social, nada, de qualquer espécie.
A família é classe média, estável, tudo ok, as crianças idem, Bolonha é uma bela cidade, há uma exposição de carros onde o garoto se enturma com um grupo de mecânicos, fazendo-se passar pelo filho de alguém, um outro mecânico respeitado de uma escuderia famosa. Fora isso, nenhuma complicação, nem sinal de um núcleo dramático, nem trama nem subtrama, nenhuma hipótese de se tratar pelo menos de um docudrama, um documentário comportamental entrecortado por material ficcional ou vice-versa.
O autor da façanha, Gianni Zanasi, 34 anos, saiu da mesma Vignola e foi estudar no Centro Sperimentale di Cinematografia em Roma, onde frequentou o curso de direção. Pelo visto e mais importante, pelo não visto faltou a aulas decisivas. E também não apareceu na classe de soggettto e sceneggiatura, ou em bom português, argumento e roteiro.
Resta ao final de A Domani não mais a cobrança em relação à ausência de méritos no filme, mas uma pergunta naturalmente pertinente: não havia nada um pouco melhor, em meio a mais de 700 filmes vistos e avaliados pelo comitê de seleção?
E agora de volta à França, sem euforia mas Rien a Faire, de Marion Vernoux, fala de desemprego, tédio, amor, desencanto. Marie, operária, está desempregada há quase um ano e meio. Pierre, executivo, há algumas semanas. São casados, mas não um com o outro. Ironia: se conhecem e se encontram no templo máximo do consumo, um supermercado. Nada a fazer durante todo o dia. A não ser compras. Primeiro amigos, logo amantes.
O axioma da vida de Pierre: trabalho, logo existo. Marie: sou amada, logo existo, mesmo desempregada. Um dia ela encontra trabalho, ele não, continuam se vendo. Um dia ele encontra trabalho, a relação termina. Assim mesmo, e nada a fazer. Claro que o título tem sentido dúbio: nenhum trabalho, nada a fazer; nenhuma solução afetiva, também nada pode ser feito. Mérito indiscutível do filme: o tratamento dado ao assunto.
Os desempregados, logo desocupados, não recebem rótulos jornalísticos ou eslogans eleitorais, não são números estatísticos. Procuram trabalho sim, mas trazem em si empregabilidade afetiva. As coisas mais ou menos se confundem, disponibilidade compulsória de força-trabalho e disponibilidade meio inconsciente para preencher outros vazios existenciais. Simpático e original, o filme de Marion Vernoux acabou prejudicado na sessão da crítica por uma projeção desfocada boa parte do tempo.Num festival onde não faltam polêmicas, há pelo menos uma certeza: ainda não surgiu a obra-prima
France PresseO diretor Gianni Zanani (de óculos) entre os atores de seu A Domani: filme podia perfeitamente estar de fora da seleção oficial





