O jovem diz para os pais que quer ser artista. A resposta é: ''E você vai viver de quê, moleque? Trabalhar você não quer, né?'' - e este provavelmente será o primeiro dos muitos baldes de água fria que o candidato a artista vai receber.
Mas a convenção de que ser artista não dá dinheiro - e portanto não seria trabalho - não é de todo injustificada. Em um país onde as artes e a cultura são relegadas a segundo plano (para que se possa atender a necessidades básicas como saúde e moradia), é difícil encontrar quem viva apenas de sua arte. E quem atingiu esse patamar hoje é porque já trilhou um longo caminho de privações e dificuldades.
Mesmo o artista que consegue pagar as suas contas trabalhando apenas em sua área nem sempre faz somente o que gosta. Quando muito, consegue pelo menos atuar em algo correlacionado ao objeto de seu interesse. O guitarrista Emílio Carlos Barreto de Oliveira, 28 anos, o Mizão, conta que já deu aulas e já tocou em várias bandas cover para ajudar no orçamento. Mas largou tudo para se dedicar aos projetos de que mais gosta. ''Passei três anos tocando cover em bandas. Chega uma hora em que isso fica automático, como se fosse o trabalho em uma empresa qualquer'', compara.
Fugir dessa monotonia, se por um lado proporcionou-lhe mais liberdade para tentar outros projetos, por outro deixou-o com as finanças mais instáveis. ''Ainda não sei como vou pagar as contas de fevereiro. Mas vejo tudo isso como um investimento, que vai me trazer resultados a longo prazo'', define Mizão, que atualmente toca na banda Cinemática, participa de vários projetos e alimenta o sonho de se dedicar exclusivamente ao projeto Lixo Extraordinário, que toca junto com um músico carioca. ''A gente sobrevive de arte esperando que um dia dê para viver disso. Mas mais complicado ainda é deixar a sua marca'', reflete.
Além de ter feito muita coisa de graça (''para aprender e ter contatos''), Mizão também credita a ''estabilidade'' atual à dedicação com que fez cada trabalho. ''Talento é importante, mas também é preciso estudar, ser perseverante, estar aberto para aprender, ter versatilidade - sem perder a identidade - e ser criativo'', ensina.
Dedicação também é a palavra que define a trajetória da bailarina Bruna Martins, 22 anos. Um dia, Bruna colocou uma foto do Ballet de Londrina em seu mural de fotos junto com a palavra ''sonho''. Anos depois, acrescentou: ''realizado''. Entre uma palavra e outra, lê-se: ''Persisti, insisti e não desisti''. E é esta a receita que ela dá para quem sonha em viver de dança. ''Quando a pessoa quer de verdade, não tem empecilhos. Há dificuldades, mas glórias também, mesmo que demore um pouco'', garante.
Mas até conquistar a sua maior glória pessoal, foi preciso gastar muitas sapatilhas. Ela começou com o balé clássico, aos 6 anos, fez balé contemporâneo, ginástica, sapateado, dança de salão, jazz, street dance e faculdade de Educação Física - tudo isso visando tornar-se bailarina profissional. ''Para se profissionalizar, a pessoa passa por vários estágios. Quanto mais bagagem corporal ela tem, melhor'', justifica a jovem, que hoje cursa Direito apenas por gostar, quase como um hobby.

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