Ao descrever para Kubai Khan o império do conquistador mongol em ''Cidades Invisíveis'', o viajante Marco Polo não falava de um espaço geográfico mas de lugares que coexistem na história, memória e imaginação. A obra clássica de Ítalo Calvino (1923-1885) não é para ser lida simplesmente pelo que está escrito. O próprio escritor afirmou, a respeito do livro, que conseguiu converter em um único símbolo suas reflexões, experiências e conjecturas.
Calvino também contou que, na infância, gostava de ler imagens, demorando muito a ser alfabetizado. Talvez por isso, ele possuísse essa capacidade de extrapolar os fatos ao criar um universo fantástico.
O exemplo serve para ilustrar o workshop ''A Construção do Leitor de Imagens'', que Anamelia Bueno Buoro ministra amanhã, a partir das 14h, na Sala de Eventos da Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL). O evento começará às 9h, na Casa de Cultura, com a palestra ''Os Novos Realistas e o Ensino da Arte'', aberta ao público.
Anamelia é doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), professora de mestrado em Moda e Design Multimídia do Centro Universitário Senac.
Há alguns anos, ela realiza pesquisas numa direção em que a leitura da arte não obedece apenas a intuição. Como Calvino, a maioria das pessoas, na infância, sabe ler imagens. Para constatar essa capacidade, basta observar o comportamento dos bebês que reconhecem até as expressões dos pais, estabelecendo sentido para cada uma delas.
''Com a alfabetização, o interesse pela imagem é esquecido. Calvino morreu nos anos 80 e se disse espantado com a quantidade de imagens na época, o que já, naquele tempo, fazia as pessoas perderem a capacidade de fazer a leitura'', afirma a professora.
Com exceção do ensino de Artes Plásticas, a educação geral não ensina a leitura de imagens, o que acaba afastando o público desse tipo de expressão artística.
Para a Anamelia, o problema não está nos métodos de alfabetização, mas na maior valorização verbal. ''Quando você mostra um quadro para uma criança e tenta explicar o que a imagem está dizendo, ela quer saber se o autor disse isso'', comenta a professora.
Autora dos livros ''Olhos que Pintam'' e ''O Olhar em Construção'', Anamelia, juntamente com uma pequena equipe, está produzindo uma série de 12 livros endereçados aos adolescentes, mas também ao público adulto, para incentivar o contato com as imagens.
''A própria produção artística do século XX se distanciou do público e ainda está se distanciando na arte contemporânea'', comenta a professora ao avaliar a afirmação de muitas pessoas que dizem não gostar de artes visuais porque não conseguem entender nada.
Ela ressalta que a maioria das escolas, ao ensinar sobre as artes visuais brasileiras, cita apenas três ou quatro artistas, que grande parte das pessoas já conhece, não ampliando o repertório dos alunos, o que deixa de contribuir com a formação de novos públicos.
''Não tem como querer que as pessoas frequentem museus se não foram sensibilizadas para isso, dominando a capacidade de leitura de imagens, característica que já nascemos com ela'', avalia Anamelia.

SERVIÇO
-Os Novos Realistas e o Ensino da arte
Quando - Amanhã, 9h, na Casa de Cultura (R. Mato Grosso, 537)
Entrada - Gratuita
- Workshop - A Construção do Leitor de Imagens
Quando - Amanhã, às 14h, na Acil
Quanto - R$ 35
Inscrições - Casa da Cultura

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