Momento fundamental no transporte de qualquer texto literário para o cinema é decidir quais elementos do texto serão preservados e quais serão descartados, seja por exigência de cronograma (não há tempo para contar tudo do texto literário original), seja por opção pessoal (não há interesse em aspectos específicos da história).

Durante anos se considerou que “O Senhor dos Anéis” era uma copiosa série de livros inadaptável por questões técnicas e narrativas. Até que em fins dos anos 1990 apareceu o neozelandês Peter Jackson (crédito obrigatório a suas colaboradoras na confecção do roteiro, Philippa Boyens e Fran Walsh) e enfrentou o desafio de converter quase 2 mil páginas da novela em três longas metragens com três horas de duração cada.

Jackson decidiu: faria das tripas coração. E como? Eliminando locais e personagens (como o velho e sábio Tom Bombadil) para poder levar adiante seu projeto. É uma adaptação literal? Não. É uma adaptação fiel? Sim. Por razões simples, e muito bem resolvidas: os três filmes (“A Sociedade do Anel”, “As Duas Torres” e “O Retorno do Rei”) compilaram a essência, o coração e os principais elementos das aventuras de J.R.R.Tolkien. Curiosamente, o diretor depois converteu “O Hobbit” (outra novela de de Tolkien, apenas 300 páginas) em nova série de três filmes, graças à inclusão de fragmentos de outras obras do escritor.

Particularmente interessante é o caso de “O Paciente Inglês”. O diretor e roteirista Anthony Mingella se apaixonou pelo livro de Michael Ondaatje, mas optou por um caminho muito diferente no momento de levá-lo para o cinema. O cineasta utilizou as bases do livro para reinterpretar e reimaginar personagens e acontecimentos do relato. Na novela, a trágica relação que vivem os personagens de Kristin Scott-Thomas e Ralph Fiennes ocupa poucos capítulos, mas Minghella captou extraordinariamente a aura nostálgica e épica da trama, e deu a este ponto de vista pelo menos metade das páginas do roteiro. Não foi fiel ao livro, como quer o manual ortodoxo, mas manteve com vantagens o espírito e o resultado da história.

As histórias curtas, ou “short stories”, também podem ser fonte de inspiração de bons roteiros cinematográficos. Originalmente, “O Segredo de Brockeback Mountain” era um conto de apenas 28 paginas, escrito pela franco-canadense Annie Proulx. Nas mãos dos roteiristas Larry McMurtry (“A Última Sessão de Cinema”) e Diana Ossana, o texto se converteu em um filme de 120 minutos, desenvolvendo os personagens em profundidade, incluindo novas sequências que exprimiam (no melhor sentido) o conflito da história e explorando as tramas familiares de Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennie Del Mar (Heath Ledger). É um grande filme, originado de um texto de poucas páginas. Neste caso, o material recebeu reciclagem (leia-se complementação) que em nada prejudicou a fonte original. Pelo contrário.

Outro relato curto foi a semente de “O Curioso Caso de Benjamin Button”, mas no filme de David Fincher apenas ficaram o nome do protagonista, o título e as características do peculiar processo de envelhecimento que tornaram famoso o conto de Francis Scott Fitzgerald, publicado em 1922. Neste caso estamos diante de um excelente diretor (“Se7ven”, “Zodíaco”, “Garota Exemplar” – três bons livros, três bons filmes: acerto de 100 por cento entre as duas artes) que se apaixonou por uma ideia e decidiu passá-la ao expert Eric Roth (Oscar de roteiro adaptado, “Forrest Gump”, 1995) para que ele construísse uma boa história em torno dela. Foi o que fez.

Mas nenhum short story teve estreia tão monumental na tela (imensa, neste caso: 70mm/Cinerama) e na mente do espectador como “2001, Uma Odisseia no Espaço” (1968). Escrito há 70 anos pelo mestre Arthur Clarke, “A Sentinela” foi o conto que seduziu Stanley Kubrick e o levou a buscar e percorrer os caminhos da humanidade, da “Aurora do Homem” até a “Missão Júpiter e Além do Infinito”. Kubrick chamou Clarke para colaborar no roteiro, e só então a história do monólito negro ganhou aqueles desdobramentos criados a quatro mãos e duas cabeças geniais. Não há melhor exemplo de um texto que reafirma a teoria de que menos é mais. Não que o conto seja “menor”; é uma pequena obra prima de concisão, mas somente o ponto de partida, o embrião da obra-prima maior que é a façanha kubrickiana de sintetizar a história da humanidade em criação que é tanto um tratado cinematográfico quanto filosófico.

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