A DIFÍCIL ARTE DA SOBREVIVÊNCIA
Sid Sauer
De Campo Mourão
Respeitável público! O grito do locutor Ivo Cordeiro, 28, para os espectadores do Circo Sul América não precisa ser muito alto. O circo, que pertence ao próprio Cordeiro, é modesto. A lona é bem menor que a dos circos mais tradicionais e está toda remendada. A capacidade das duas arquibancadas de madeira parece ser bem menor que os 300 lugares anunciados pelo proprietário. O acanhado picadeiro também não impressiona ninguém.
O Circo Sul América, que estava na semana passada no distrito de Sertãozinho, em Engenheiro Beltrão (36 km ano norte de Campo Mourão), parece ser prova da persistência dos artistas circenses. O atirador de facas, palhaço e engolidor de fogo Jorge Rodrigues, o Mandureba, 63 anos, é um exemplo disso. Ele vive em circo há 45 anos. Em algumas vezes, chegou a ser dono do circo. O próprio Sul América foi dele até meados do ano passado.
Troquei o circo por um Fiat 1977, conta Mandureba. O carro, segundo ele, não vale mais do que R$ 600,00 e está parado na casa de um amigo dele, no distrito de Bourbônia, em Barbosa Ferraz (74 km a leste de Campo Mourão). Não tenho dinheiro para a gasolina, explica o atirador de facas. Mandureba, aliás, é o único dos 15 membros do circo - 7 adultos e 8 crianças - que possui carro. E possui dois. O outro é uma surrada Kombi que lhe serve de casa.
Mandureba mora na Kombi com a mulher Magali Muniz, 38, e as filhas Jociele, 7, e Josiane, 4. Tanto a mulher quando as filhas participam com ele da prancha da morte, o espetáculo em que Mandureba atira facas ao redor dos corpos dos familiares. Ele garante que nunca errou o alvo. O segredo é ter o pulso firme e um bom golpe de vista, conta. Aos 63 anos, Mandureba não aparenta mais do que 40 anos e se orgulha do pai, que tem 106 anos.
Nosso circo tem algumas atrações que muito circo grande não tem, conta Mandureba. Quem vê a lona não vê o que está lá dentro, completa. Ele admite que o circo precisa de uma lona nova, mas vê dificuldades para isso. O proprietário Ivo Cordeiro, que já teve outros circos e que entre a posse de um e outro também trabalha em rodeios, diz que seria necessário pelo menos R$ 20 mil para a aquisição de uma boa lona nova. Hoje, isso está totalmente descartado.
Os artistas do Circo Sul América sobrevivem com dificuldades. É preciso uma sequência de praças boas para que cada um fature cerca de um salário mínimo por mês. Mandureba, por exemplo, fica com 20% da arredacação, o que não lhe renda mais do que R$ 5,00 por noite. Já passei fome, ressalta. Tivemos que sair batendo nas casas e pedindo alguma coisa para comer. Abandonar o circo, porém, ninguém pensa. É isso que nós sabemos fazer.
Quem é do circo não pára, frisa Cordeiro. É a nossa cultura. Ele fala isso com a experiência de quem tentou abandonar a carreira por várias vezes. Sempre acabou voltando. Cordeiro, aliás, se orgulha das 10 apresentações que são feitas no seu circo. Nossa parte artística está boa, conta. Ele só reclama do público. Está fraco. Os ingressos têm preços populares: R$ 1,00 para crianças e R$ 2,00 para adultos.Se a gente cobrar mais, daí que não dá ninguém.
Roberto Carlos Arruda, o Futrica, 29 anos, filho adotivo da dupla Compadre Moreira e Adelaide, atua no Circo Sul América como palhaço e trapezista. Junto com ele também atua o filho mais velho, Clóvis, o Linguicinha, de 10 anos. Futrica tem outros cinco filhos, sendo que o mais novo tem um ano e meio. Todos moram num velho e enferrujado trailler que precisa ser puxado pelo caminhão contratado para fazer o frete do circo.
No trapézio, Futrica não conta com nenhuma rede de proteção. Aqui é no pau puro e o trapezista tem que ser bom, conta. O filho mais velho se apresenta como equilibrista no rola-rola, além de participar das apresentações de humor como palhaço. Os irmãos dele também já começam a ser cobrados para apresentarem algum espetáculo. Uma das primeiras missões é aprender a andar numa bicicleta de uma roda só.
Apesar das dificuldades, o proprietário Ivo Cordeiro não desanima. Ele fala em organizar o circo e encontrar melhores momentos. Uma das primeiras dificuldades é conseguir dinheiro para mandar confeccionar cartazes. É importante ter cartazes anunciando a chegada do circo, conta. Mas por enquanto não sobrou dinheiro. Cordeiro também lamenta que o Fiat 147 usado como carro de som do circo esteja sem gasolina em Bourbônia.
Há duas semanas, eles não tinham como anunciar em Sertãozinho a presença da Mulher Pantera, que desafia homens para a luta. A Mulher Pantera não acompanha o circo só se apresenta uma vez por semana. É o melhor dia para Cordeiro, mas metade da renda fica com a atração principal. O sábado também tem boas perspectivas de público por ser o dia de pagamentos de trabalhadores volantes.
A mulher de Cordeiro, Mária de Fátima, vive o drama da falta de dinheiro. Apesar de circense, ela mora em Maria Helena, na região de Umuarama, junto com cinco filhos. Eles precisam estudar, diz. Maria de Fátima foi para o circo para ficar apenas dois dias como marido. Por falta de dinheiro para a passagem, acabou ficando por mais de 15 dias e sem nenhuma perspectiva de saber quando poderá voltar para casa. Precisamos achar uma praça boa.
No Circo Sul América, no entanto, ninguém tem mais tempo de profissão do que Geraldino Pinto Pedrosa, o Carrapicho, 68 anos. Ele disse que trabalha em circo há 54 anos. Sua especialidade é ser palhaço, mas Carrapicho também pode atuar como toureiro. Só deixo o circo dentro de um caixão, conta. Sempre bem-humorado, ele ressalta que o segredo da vida é ser feliz e fazer da vida uma brincadeira. Eu consegui isso no circo.Muito diferente dos circos que aparecem na TV, o Circo Sul América tem artistas que enfrentam muitas dificuldades
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