A DESPEDIDA DE UM MITO
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de junho de 2001
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
Os grandes homens têm o mundo como sua pátria. Este era o pensamento de Anthony Quinn, de acordo com a resposta que deu à repórter Simone Mattos, da Folha Dois, quando ela perguntou-lhe se os anos em que viveu na Itália iriam ajudá-lo a compor a personagem do filme Oriundi, rodado em Curitiba. Não creio. Eu também achava que a cultura italiana era muito grande, mas descobri que homens como Michelangelo, Da Vinci e outros não são nascidos na Itália, mas são nascidos no mundo.
Essa maneira de ver e sentir o mundo o artista deixou nos filmes e na história de vida, finalizada há uma semana num hospital de Boston, nos Estados Unidos. Estava com 86 anos. Sua morte reavivou lembranças dos curitibanos que estiveram próximos a ele durante dois meses, em 1998, quando o astro veio para as filmagens de Oriundi. Seu papel era o de um patriarca italiano octagenário, Giuseppe Campisi.
O nome de Anthony Quinn suscita respeito e reverência, três anos depois de sua passagem por Curitiba. A pessoa mais próxima a ele, nesses tempos, foi o produtor Rubens Gennaro, que se lembra desses dias como tudo muito mágico. Ele assegura ter guardadas várias cartas do artista.
No ano passado, quando do lançamento oficial de Oriundi o ator voltou ao Brasil pela segunda vez. Assistiu à sessão, não gostou do final dado pelo diretor havia um acordo prévio de que ele próprio, Quinn, cuidaria disso e saiu pisando duro, determinado a mudar as cenas como julgasse melhor. A Gennaro explicou a razão de seu descontentamento: Este é meu último filme. Fez as mudanças que julgou necessárias e mandou ao produtor curitibano todos os takes. No seu último aniversário, dia 21 de abril, assistiu à película na versão definitiva, como ele queria.
Dizem que Quinn era ao mesmo tempo terno e genioso. A uma carícia poderia seguir-se um ato ríspido. O mexicano que rompeu o preconceito americano e se tornou celebridade mundial a partir de Hollywood, por duas vezes pediu reforma agrária a governantes brasileiros, como testemunhou o produtor Rubens Gennaro. A primeira foi em Brasília, em conversa com o presidente Fernando Henrique. Vejo esse País com tantas terras, tanta riqueza e esse povo na rua vivendo na miséria, sem terra, fulminou. A segunda vez ocorreu no encontro com o governador Jaime Lerner. Novamente bateu na mesma tecla. Depois iria se justificar como sendo um filho de sem terra, filho da revolução zapatista.
Pois esse filho revolucionário foi o mesmo que se apaixonou pelos docinhos servidos na entrevista coletiva, no prédio da Telepar, quando chegou a Curitiba. A quituteira Letícia Krause serviu, entre outros mimos, luxemburbing, um tipo de petit-four com farinha de amêndoas e clara de ovos, recheado de sabores diferentes.
Anthony Quinn gostou tanto do doce que durante dois meses recebeu porções regulares na casa onde se hospedou, uma mansão do empresário Cecílio Rego Almeida. Aliás, nessa tarde da entrevista, ele ficou num dos andares superiores do prédio, esperando ser chamado. Coube à jornalista Kátia Reis, da agência Literal Link, buscá-lo. Justamente ela que vinha de uma cidade pequena (Marmeleiro), onde não existia cinema. Porém, sabendo que seria a assessora de imprensa durante as filmagens, municiou-se de revistas, livros e fitas.
Ela conta que quando o ator saiu do elevador e viu a multidão que o esperava, instintivamente segurou sua mão. Foi assim, de mãos dadas, que eles adentraram o local da entrevista. Foi um gesto muito simpático, resume. Kátia diz que as crianças eram sempre motivo de carinho do velho artista, indistintamente. Brincava com elas, era atencioso.
Mas deixava de lado a ternura e colocava para fora sua irritação quando as coisas não caminhavam da forma como estavam previstas. Atrasos na hora da gravação, por exemplo, o enfureciam. Especialmente nesses momentos a ala jovem que trabalhava na técnica, não perdoava. Velho chato, tascavam os moços. Os mais velhos compreendiam e reverenciavam.
Certa vez a repórter de uma revista de São Paulo que veio especialmente para entrevistá-lo, perguntou-lhe se não era pouco ter dois Oscar como coadjuvante. A moça queria enaltecê-lo, mas a pergunta foi mal formulada e soou de forma desagradável para o ator. Quinn olhou-a surpreso, levantou-se e saiu sem lhe dirigir a palavra.
Outro episódio em que o sangue esquentou foi durante uma cena com Paulo Autran. Quem se lembra disso é Raquel Rizzo: Anthony saiu do set de filmagem e voltou cinco minutos depois, pedindo desculpas.
Para a atriz a famosa rabujice de Quinn devia-se à sua entrega total ao trabalho. Ele se jogava no precipício das emoções sem atinar se teria algum tipo de segurança. Ele brigava pelo chapéu, pelo texto, por tudo, diverte-se. Anthony Quinn é um latino vulcânico, explosivo, carinhoso. Nos tratou como colegas, apesar da presença dele dar uma desequilibrada geral. Eu o adoro, é uma pessoa queridíssima, enfatiza Raquel no presente, porque para ela o ator agora está mais presente que nunca.


