A desconstrução dos super-heróis
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de março de 2009
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
''A cidade tem medo de mim. Eu vi sua verdadeira face.'' O texto inicial do diário de Rorschach dá o tom de toda a maxissérie Watchmen, que tem lançamento de sua adaptação cinematográfica em circuito nacional a partir de amanhã: trata-se de uma história de super-heróis sombria e complexa, que envolve temas como a Guerra Fria, teoria do Caos e outros assuntos polêmicos, a exemplo de estupro e corrupção.
''Watchmen'', escrito pelo xamã/escritor britânico Alan Moore e desenhado pelo compatriota Dave Gibbons, fez sucesso não apenas por ter desconstruído para sempre o mito dos super-heróis bonzinhos e incorruptíveis; também elevou o conteúdo dos quadrinhos direcionados ao público adulto e brincou com as possibilidades de narrativa, em tom cinematográfico.
A publicação foi divisora de águas na nona arte, já que decretou de vez o fim da Era de Prata dos quadrinhos, sepultou a inocência dos gibis. Depois de ''Watchmen'' e de ''Cavaleiro das Trevas'' - que coincidentemente voltam a fazer barulho juntos -, nada mais foi o mesmo nas revistas de super-heróis.
'''Watchmen' também revolucionou ao trazer temas de vanguarda, como a teoria do caos, para os quadrinhos'', argumenta o quadrinhista e professor Gian Danton, que no congresso de comunicação Intercom de 1995, na Universidade Estadual de Londrina, apresentou grupo de trabalho especializado na obra de Moore e Gibbons. Danton atualmente dá aulas em Macapá (AP).
''Ali o Moore mostrou que dava para fazer quadrinho adulto com personagens que até então eram para crianças. É uma releitura de personagens clássicos, a história que jamais fariam com o Superman ou o Batman'', destaca o quadrinhista José Aguiar.
Apesar de enxergarem a adaptação para o cinema com bons olhos, os especialistas concordam que o impacto do filme não será o mesmo dos quadrinhos.
''Alan Moore jura que é impossível adaptar Watchmen para o cinema porque ele definiu em muitos aspectos a linguagem dos quadrinhos. Diferente de outras obras, que foram procurar inspiração no cinema, Watchmen procurou a essência nos quadrinhos'', afirma Danton. ''O filme vai cumprir sua missão de chamar a atenção para a obra original'', complementa.
''Acho que não vai ter o mesmo impacto que a revista mas percebo que o filme está sendo feito para ser o mais fiel possível. Espero que ele funcione, que as pessoas sintam na primeira vez a essência da história'', comenta Aguiar.
Polêmica à parte, a expectativa é enorme: em 2007, a DC Comics vendeu mais de 200 mil exemplares e no ano passado imprimiu mais um milhão de cópias. Se o filme foi dirigido com privilégios para esse ''seleto grupo de leitores'', o cineasta Zack Snyder deve fazer sucesso.


