A desconstrução da lógica
'A Promessa – A Pane', reúne duas instigantes obras do escritor suíço Friedrich Dürrenmatt
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de maio de 2019
'A Promessa – A Pane', reúne duas instigantes obras do escritor suíço Friedrich Dürrenmatt
Marcos Losnak 
Literatura é construção. Literatura também é desconstrução. A construção de algo que caminha para a perfeição. A desconstrução de algo que atingiu uma possível perfeição.
Um belo exemplo de desconstrução literária está em “A Promessa – A Pane”, obra de Friedrich Dürrenmatt (1921 – 1990) que acaba de ser lançado pela editora Estação Liberdade. O livro reúne num único volume o romance policial “A Promessa” e a novela de tribunal “A Pane”, duas das mais instigantes narrativas do escritor suíço.
Em “A Promessa” (1958) Dürrenmatt altera a estrutura do gênero policial desconstruindo a atuação do detetive na solução dos crimes. O personagem principal, o detetive Matthäi, apesar de utilizar todos os métodos possíveis de investigação, sejam morais ou imorais, simplesmente não consegue encontrar o culpado por um crime brutal.
Em “A Pane” (1956) Dürrenmatt altera a estrutura da novela de tribunal desconstruindo um clássico julgamento apresentando um tribunal sem tribunal, um julgamento sem provas e uma condenação sem crime. O personagem principal, o caixeiro-viajante Traps, interioriza e assume um crime que não cometeu a partir de um jogo de retórica de advogados, promotores e juízes.
Tudo se inicia em “A Promessa” quando um escritor de romances policiais se desloca até uma pequena cidade para proferir uma palestra. Na platéia encontra-se um chefe de polícia aposentado, que lhe oferece uma carona na volta para casa.
Na estrada uma longa conversa tem início. O ex-chefe de polícia argumenta que o gênero policial não corresponde à lógica de uma investigação real de um crime. Para ele, a ficção policial não leva em consideração de que a lógica da realidade pode seguir caminhos absurdos, e de que o acaso pode agir com requintes de crueldade.
Para provar seu argumento, o ex-chefe de polícia conta ao escritor uma história real que aconteceu com um de seus melhores profissionais, o detetive Matthäi. Policial experiente, Matthäi começa a investigar o abuso sexual e assassinato de uma garotinha. O principal acusado acaba, sob pressão, confessando o crime. Preso, comete suicídio em sua cela.
Todos dão como o caso encerrado, Matthäi não. Ele acredita que o verdadeiro criminoso ainda está solto e propenso assassinar outras crianças. Em sua obsessiva dedicação, acaba abandonando a polícia para se dedicar completamente na missão de encontrar o verdadeiro assassino.
Após anos, Matthäi constata que não chegará até o assassino, então resolve atraí-lo numa armadilha. E rompendo, para isso, com todo tipo de padrão ético ou moral. O drama está no fato de que, por obra do acaso, ele nunca consegue elucidar o caso. Então outro policial, sem a mínima intenção, recebe a soluções do caso gratuitamente por obra do acaso justamente quando o assassino não pode mais ser culpado ou condenado pelo crime.
“A Pane” traz a história de Traps, um caixeiro-viajante que precisa pernoitar num pequeno vilarejo devido a um problema no motor de seu carro. Hospeda-se no casarão de um promotor aposentado e recebe o convite de participar de um jantar de uma confraria de se diverte encenando tribunais fictícios. Ao aceitar participar do jogo, Traps assume o papel de réu. Os outros presentes, todos advogados, promotores e juízes aposentados, procuram descobrir um possível crime de que Traps poderia ser acusado, julgado e condenado. Um tribunal se instala ao redor de uma mesa repleta de comida e vinhos, risadas e gargalhadas.
Com o passar das horas, aquilo que Traps achava ser uma divertida brincadeira, assume ares de um tribunal sinistro onde ele começa a se sentir culpado por um crime que não cometeu. Sua suposta condenação começa a ser vista, por ele mesmo, como um verdadeiro alívio.
Nascido em 1921, na Suíça alemã, Friedrich Dürrenmatt é conhecido no Brasil pela autoria de dois textos teatrais regularmente encenados: “A Visita da Velha Senhora” (1956) e “Os Físicos” (1962). Ao falecer em 1990, deixou uma produção que envolve romances, novelas, sátiras, textos teatrais e contos. Entre seus livros publicados do Brasil estão “Vale do Caos”, “O Juiz e Seu Carrasco”, “A Tarefa”, “A Suspeita” e “O Túnel”.

Serviço:
“A Promessa – A Pane”
Autor – Friedrich Dürrenmatt
Editora – Estação Liberdade
Tradução – Petê Rissatti e Marcelo Rondinelli
Páginas – 224
Quanto – R$ 45


