A desarticulação emotiva do corpo Marcos Losnak Especial para a Folha2
A desarticulação emotiva do corpo
Marcos Losnak
Especial para a Folha2Reprodução
Em grande parte das situações, a violência sustenta sua existência em dois pontos distintos, o da força e o da vulnerabilidade. O espetáculo Creme, que a companhia mineira Ur=H0r apresentou no Festival Internacional de Londrina 98, oferece imagens corporais trafegando entre força e vulnerabilidade de maneira original. Utiliza sutilezas poéticas em linguagens multidisciplinares.
Embora se apresente como não necessariamente uma companhia de dança é justamente a estética corporal desenvolvida pela Ur=H0r que domina Creme. Fazendo interessante uso da música (eletrônica, pop, minimalista, eletroacústica) cinema (super 8) e animação, o trabalho da companhia parte de uma estética da desarticulação para atingir a harmônica articulação.
Desconstruindo movimentos lineares, as coreografias evidenciam o contato, ou confronto, corporal dos bailarinos. Os diálogos são realizados eliminando a distância dos corpos. Parecem indicar que qualquer tipo de contato pressupõe conflito, a batalha em busca do entendimento e a batalha para suportar o entendimento.
O espetáculo, concebido e dirigido por Adriana Banana, desenvolve uma narrativa corporal através de movimentos desarticulados não lineares. Narrativa esta que, num primeiro momento, induz ao estranhamento. Comparável ao mesmo processo que ocorre quando ouvimos um idioma desconhecido. Mas em pouco tempo o espectador começa a compreender o código corporal dos bailarinos e passa a trafegar no mesmo idioma.
Creme trabalha a violência de maneira subliminar, a violência que não deixa marcas físicas mas lentamente coloca as mínimas peças da morte em cada átomo de sentimento. Aquela que está desprovida de julgamento pelo fato de não comportar provas. O doce e o amargo a caminho do sal dos oceanos nas ondas do eterno retorno.
Os filmes que integram o espetáculo caminham lado a lado com a estética corporal proposta pelo Ur=H0r. O desenho animado, por exemplo, é capaz de representar com elegância as coreografias desenvolvidas pela companhia, provando que diferentes linguagens (formas) podem preservar a mensagem (conteúdo): a recepção e a emissão de sensações.
Tanto as artes cênicas como a medicina encaram, normalmente, os corpos como organismos articulados. Quanto maior harmonia desempenhada pelos corpos, mais adorável sua estética. O trabalho da companhia Ur=H0r passeia por outros campos, caminha para um pensamento latente nas malhas da filosofia. O homem seria um ser desarticulado que busca incessantemente, e utopicamente, a articulação. Seria capaz de qualquer coisa para apagar sua gênese desarticulada - o enfoque da mente e o corpo contemporâneo seriam os melhores exemplos disto. Esta busca poderia representar a fatalidade de uma ilusão, como também poderia ser uma tábua de salvação para os náufragos.
Não seria muito dizer que adultos são crianças náufragas.





