A democracia no banco dos réus
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de março de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
DivulgaçãoO Povo Contra Larry Flynt: o direito de publicarNinguém mais histórica e artísticamente autorizado e habilitado para dirigir O Povo Contra Larry Flynt (veja a programação de cinema na página 3) do que o tcheco Milos Forman. Refinado diretor de ótimas comédias de costumes e engajado ativista da chamada Primavera de Praga, uma espécie de terremoto democrático que fez tremer os fósseis do cripto-comunismo então hibernando na Tchecoslováquia, Forman foi obrigado a mudar de ares quando os tanques encheram as ruas e sufocaram o movimento. Era 1969, e o local escolhido para o exílio foi a América. Alí, ironicamente, Forman iria tornar-se um dos mais diligentes críticos dos costumes da sociedade americana. E logo na estréia, em 71, com a sátira Takinf Off, bom em seu tempo mas hoje um filme datado e mera curiosidade histórica, como a maioria de tudo o que surgiu nos Estados Unidos no fim dos 60 e início dos 70. Mas a promessa deste primeiro filme americano seria realizada plenamente quatro anos mais tarde com Um Estranho no Ninho, vigorosa estocada no autoritarismo institucionalizado. Apesar de anti-establishment, o filme levou cinco Oscars, um deles para o atrevimento de um cineasta estrangeiro que mal falava inglês. Não satisfeito, Forman voltou à carga em 79 com nova ousadia: a adaptação do musical Hair, um ícone da contracultura nos comunitários e floridos anos 60. Já Ragtime, sua tentativa seguinte de explorar o lado obscuro do sonho americano, não foi muito convincente. Mas outro sucesso (e outro Oscar) estaria reservado a Forman em 84: Amadeus, uma festa para olhos e ouvidos, um lance de rara inspiração. E a confirmação de que todos os filmes traziam em comum um tema subjacente: o ser humano em busca da plena liberdade.
O pornógrafo e a Primeira Emenda Fiel a seu currículo social-democrata, Forman se encantou com o roteiro de O Povo Contra Larry Flynt(o título acompanha o original, e se refere ao processo movido pelo Estado contra o cidadão Larry Flint). E não era para menos. Prato cheio para os incendiários de plantão - como Oliver Stone, aqui somente fazendo as vezes de produtor - a cinebiografia do fundador e editor de Hustler, a mais famosa revista pornográfica do mundo, trazia no papel todo o potencial para um filme polêmico, justamente numa época de nova onda moralizadora nas artes e na mídia nos Estados Unidos.
Pura dinamite, a história. Mais especificamente, uma história baseada na vida controvertida do pornógrafo e ativista pelos direitos civis Larry Flynt, durante anos processado por obscenidades. Casado com uma go-go girl, Flint sofreu um atentado em 78, sendo atingido pela bala de um fanático de cruzadas antipornô que o deixou paralisado da cintura para baixo. Acabou ganhando o caso na Suprema Corte, sempre invocando a prerrogativa da Primeira Emenda da Constituição americana, que entre outras coisas garante a liberdade de expressão. Foi ainda candidato a presidência em 83. Hoje, aos 54 anos, Flint não só forneceu preciosa assessoria à produção como considera o filme absolutamente honesto e fiel aos fatos. Era esse o gancho que faltava para Stone fisgar Milos Forman, que ficou impressionado com a luta solitária de um homem para ter o direiro de publicar o que bem entendesse. Nesta cinebiografia do rei do pornô americano e mundial, Forman optou por fazer um filme de arte, em que a pornografia é abordada circunstancialmente. O que interessou ao diretor foi a opressão, a intimidação e a capacidade de reação e luta do acusado.
O elenco de O Povo Contra Larry Flynt traz Woody Harrelson como Flynt, no papel que o ator com certeza estava esperando e que pode dar-lhe uma estatueta. A mulher de Flynt, Althea, é vivida por Courtney Love, para muitos uma bela surpresa. Ainda credenciando o filme, uma cesta já com alguns prêmios importantes: Urso de Ouro para melhor filme do recém-encerrado Festival de Berlim e Globo de Ouro para melhor diretor de 96. Na próxima noite do Oscar, daqui a 17 dias, pode dar Milos Forman novamente como melhor diretor, compensando assim a ausência do filme em diversas categorias.


