A DECOMPOSIÇÃO DO POLÍTICO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de setembro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Se você não suporta mais as propagandas eleitorais ou se está arrancando os cabelos todas as noites diante do horário político, não se desespere: há uma alternativa para ocupar o tempo durante o desfile de candidatos. Essa alternativa, ou opção, pode ser encontrada nas livrarias. Trata-se do romance Os Vermes que acaba de ser publicado pela Editora Objetiva. Escrita por José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, a obra é uma comédia política temperada com lama e excrementos. Parte do atual quadro político brasileiro, em que a corrupção é o carro-chefe, para apresentar uma humorada ficção escatológica onde governantes e vermes fazem parte da mesma família.
Os autores resumem essa proximidade da seguinte forma: Vermes e políticos têm mais em comum do que se pensa. Ambos fazem caminhos tortuosos, estão em todos os lugares e preocupam-se, antes de tudo, com sua sobrevivência. Há porém uma diferença: os políticos tentam entender a natureza da política, os vermes, a política da natureza.
O personagem principal do romance é um verme. Isso mesmo, um verme desses que fazem parte da flora (ou fauna) intestinal da grande maioria das pessoas. Seu nome, Helminto.
A aventura do jovem Helminto começa no dia em que, passeando por uma folha de alface, é devorado por um político. Após sobreviver ao perigo da mastigação, passa morar no corpo de seu hospedeiro, um influente congressista federal e candidato a presidente.
O verme começa, então, a vagar pelo seu novo lar e a conhecer coisas e seres inimagináveis. Isso ao mesmo tempo que o nobre deputado vaga pelos bastidores do poder político tramando os golpes mais escusos. Helminto, como todos os vermes de sua espécie, possui a capacidade de ver e ouvir tudo o que o hospedeiro pensa e vive. Assim, seus dias passam a ser ocupados pelo desejo em conhecer o corpo humano e acompanhar os passos do político em que habita. Em ambos os casos, o fétido cheiro é o mesmo.
O político vive um importante momento de sua carreira. Para se eleger presidente da república, ele lança um ousado projeto de saneamento básico para o país. Planeja construir uma imensa rede de esgoto que cruzaria toda a extensão da nação, de norte a sul e de leste a oeste. Para isso, fecha acordo com uma construtora que, com o superfaturamento da obra, financiará sua milionária campanha.
O problema está no fato de que seu jovem adversário, e também candidato à presidência, apresenta um projeto semelhante. A diferença é que o concorrente defende a privatização do saneamento. É que ele fechou acordo com investidores internacionais que, aos comprarem a estatal do esgoto, devidamente vendida a um preço inferior ao de mercado, bancariam sua pomposa campanha presidencial.
Nesse quadro, a política se apresenta como um simples jogo. Interesses e dinheiro são cobiçados troféus. Alguns podem até considerar que política não é negócio, mas na conjuntura de Os Vermes ela não passa de uma arte de fazer negócios. Como se vê, a ficção está cada vez mais próxima da realidade.
Ao mesmo tempo que Helminto passeia pela piscina amarela da bexiga e pelos labirintos de barro do intestino grosso, ele acompanha, de quebra, a batalha de seu hospedeiro e o adversário comprando, um a um, os votos dos congressistas para a aprovação de seus respectivos projetos. Em outras palavras, José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta realizam uma alegórica e bem-humorada associação entre as tramóias da política brasileira com as funções excretoras do corpo humano. O tradicional mar de lama converte-se num cômico mar de merda.
Em Os Vermes, Brasília chama-se Arca, uma cidade planejada e construída na forma de um corpo humano de acordo com o clássico desenho anatômico de Leonardo da Vinci. Na região dos pés, por exemplo, moram a população de baixa renda; na região dos genitais, ficam os bordéis; próximo do estômago, está o setor de restaurante; na lugar do coração, templos religiosos; e assim por diante. Dessa forma, assim como hospedeiro percorre toda a cidade procurando fazer alianças políticas pautadas pela corrupção, Helminto percorre o corpo do hospedeiro experimentando todos os tipos de excrementos produzidos pelo homem.
É inegável que O Vermes é um romance inundado de criatividade, escrito em linguagem ágil e direta. Pode ser descrita como uma fábula irreverente ou uma crônica cômica da atual promiscuidade dos governantes brasileiros. Mesmo assim, esses ingredientes não retiram os ares de literatura de entretenimento inteligente que a obra transpira, como uma espécie de comédia de costumes que cultiva chavões no riso do canto da boca.
Como o fim de todo homem é ser devorado por vermes assim como o destino de todo verme é ser comido por outro verme os políticos não estão inume a essa regra natural. Nessa comédia, a nação, diante da impossibilidade de se livrar dos políticos corruptos, reza para que os vermes façam o serviço. Numa espécie de troco, resta à população, com um certo sarcasmo nos lábios, esperar que eles, os políticos, sejam consumidos pelos bichos. De preferência devorado pelos vermes de verdade biológica, aqueles bichinhos encarregados da decomposição dos habitantes do planeta. Os vermes que se entendam.
Os Vermes, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, Editora Objetiva, 248 páginas. Preço: R$ 21,90.


