Paulo Polzonoff Jr.
De Curitiba
A Incrível e Fascinante História do Capitão Mouro (Ed. Sol e Chuva, R$ 25,00) conta a realmente incrível e fascinante aventura de Saifudin, um árabe que estava indo para Meca cumprir a peregrinação obrigatória do Alcorão quando, no meio do caminho, foi interpelado por piratas que afundaram seu navio e o deixaram à deriva durante duas semanas até que o navio de um judeu que estava em viagem para o Brasil para visitar seu irmão encontrou-o boiando em meio aos destroços e o trouxe a bordo. Saifudin e o judeu, Ben Suleiman, acabaram por se envolver com o quilombo dos Palmares, onde Saifudin, chamado pelos quilombolas de Capitão Mouro, ajudou a fortalecer as guarnições dos escravos foragidos que lutavam contra os bandeirantes liderados por Jorge Velho.
Sem contar com muitas fontes documentais, o autor Georges Bourdoukan foi buscar nas tribos nômades do Saara africano a história deste árabe que desafiou a Corte e a Inquisição ao salvar escravos e ajudá-los na resistência contra os incansáveis bandeirantes. Ao que parece, fez um belo trabalho de investigação. Pena que as lacunas de três séculos foram mal preenchidas por diálogos inverossímeis, personagens sem consistência e discursos políticos fora de época.
Ao leitor ficará clara a opção do autor por retratar de forma maniqueísta a relação escravo/escravagista, não raro de forma escatológica, com homens que se simpatizam após fartas demonstrações de ventosidades. Não que excessos não faltassem aos homens do século XVI.
Bourdoukan também nos presenteia com filosofias baratas e discursos religiosos. Ao chegar ao porto e ver um escravo sendo morto por cães, Saifudin, o Mouro, comenta ‘‘são loucos’’, ao que o judeu retruca, com ar de sábio: ‘‘são apenas humanos’’.
Algumas passagens são dignas de citação pelo absurdo do lugar-comum. ‘‘Os negros lutavam por liberdade, os brancos por riqueza. Os brancos fugiram’’ (pág. 104). Ou então: ‘‘É impossível possuir bens e manter a liberdade’’ (pág. 94), que parece ter sido transcrito de um panfleto marxista. O mais surpreendente, porém, ocorre quando Ben legitima a relação homossexual entre o senhor de engenho Conde e seu escravo Gaspar, citando o mito grego da criação: ‘‘Diz que no início todos éramos duplos. Qualquer ser humano era macho e fêmea; macho e macho; fêmea e fêmea. Os deuses então dividiram todos em dois. (...) Por isso passamos nossas vidas tentando encontrar, para abraçar, nossas metades.’’ Isto no século XVI!
O questionável em Bourdoukan não está nos seus posicionamentos e crenças políticas, e sim no fato de legitimá-los usando de instrumentos literários num livro que pretende ter bases históricas sólidas e, por isto mesmo, críveis.
Georges Bourdoukan é um jornalista corajoso, que passou oito dias preso nos porões da Operação Bandeirante, além de ter sido demitido de vários órgãos sempre por reportagens que teimavam em mostrar a verdade. Atualmente o jornalista escreve para a revista ‘‘Caros Amigos’’. Como jornalista tem-se mostrado um profissional competente e um cidadão atuante. Como escritor, porém, desperdiçou um material de grande potencial narrativo tentando preencher lacunas históricas com dialética panfletária e literatura sem talento.

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