A decadência elegante nas fotos de Helmut Newton pode ser vista no MAM
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quinta-feira, 30 de março de 2000
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 31 (AE) - Em 1971, o fotógrafo alemão Helmut Newton sofreu um enfarte e sua mulher, a também fotógrafa Alice Springs, o fotografou de diversas maneiras naquela situação-limite, até mesmo cheio de tubos pelo rosto e pelo corpo. Era mais um lance de uma brincadeira conjugal que atravessou 50 anos - ele a fotografava e vice-versa e ambos faziam versões diferentes de fotos de personalidades.
Parte desse material, cerca de cem fotos, virou livro intitulado "Us and Them" e estará exposto a partir de terça-feira no Museu de Arte Moderna de São Paulo - outras oito fotos seguirão para o novíssimo Shopping Villa-Lobos, que será inaugurado no dia 18 com painéis fotográficos de Newton na fachada.
Yves Saint-Laurent, Karl Lagerfeld, Andy Warhol, Catherine Deneuve, Timothy Leary: uma constelação de estrelas serviu aos caprichos da lente de monsieur Newton - e também de sua mulher, observadora tremendamente imparcial de sua saga imagética. Inaugurou a era da decadência com elegância.
Helmut Newton fotografava modelos nuas em casacos de peles pelas ruas de Paris, nos anos 60 e 70, enquanto seus colegas de geração fotografavam "coisas sérias", como as grandes reviravoltas comportamentais daqueles tempos. Dizia-se que sua maior influência era a fotógrafa alemã Yva, que fazia retratos e nus e com quem ele trabalhou em Berlim.
"Não foi Yva, embora ela tenha sido minha mestra e eu fui seu aprendiz quando tinha apenas 16 anos", disse Newton, em entrevista. "Minhas maiores influências como fotógrafo foram Brassai, dr. Eric Salomon, Erich von Stroheim e os romances de Arthur Schnitzler e Stefan Zweig."
Oposto da verdade - "Eu posso enxergar a verdade e a simplicidade nos trabalhos de Alice Springs", disse Newton, referindo-se à mulher - australiana cujo nome verdadeiro é June Browne. "Nos meus próprios trabalhos, eu reconheço a manipulação e a editorialização." A questão é: a manipulação é o oposto da verdade, para um artista da manipulação?
Newton não responde à questão, diz que não tem como responder. Mas dá uma pista, ao comentar que sua posição sobre a cineasta Leni Riefenstahl é diferente da da ensaíasta Susan Sontag. Existiria uma arte "do mal" e uma "do bem"? "Certamente não tenho a mesma opinião de Susan Sontag sobre isso", diz o fotógrafo. "Eu tento não ser emocional e separar o trabalho do artista de seu personagem ou sua opinião política", afirma.
Helmut Newton tem 80 anos de idade e 68 de fotografia. Começou a fotografar aos 12 anos. Aos 14, queria ser cineasta, mas voltou à fotografia. Nos anos 50, fotografou para a "Vogue" francesa e escancarou um estilo de imagens fortes, mulheres em poses decadentes e seminuas andando pelas ruas - um universo que só nos anos 80 seria retomado por gente como Mario Testino e Oliviero Toscani.
Chegou a Paris em 1957 e logo ganhou fama por seu conceito de excessos, mas principalmente por acreditar na fotografia como uma espécie de lente distorcida da realidade. Hoje, já fala com mais melancolia. "Sim, eu acho que o conceito de fotógrafo, tal como nós o conhecemos hoje e no passado, está a ponto de desaparecer", afirmou. "Eu não ficaria surpreso se daqui a 20 anos não conseguisse sucesso na tentativa de comprar um rolo de filme preto-e-branco ou colorido."
Lugar nenhum - Teatral e realista ao mesmo tempo, Newton passou ao largo da obra de contemporâneos como Robert Capa, Robert Doisneau e Cartier Bresson. Não tem nada de documentarístico em seu trabalho, até pelo contrário: suas fotos são de lugar nenhum e seus personagens são de todo lugar.
"Sim, eu acredito num tipo de fotografia que tenha uma função social", ele diz, misteriosamente, sem dizer de que lado se posiciona. Conhece e acha "fascinante e belo" o trabalho de Sebastião Salgado, mas este também é quase uma antítese da obra do alemão. Mas o cerne da exposição mostra seu trabalho ao lado do da mulher, como espelhos que não se refletem. "Para mim, é interessante notar como, ao longo desses 52 anos, nenhum dos dois foi influenciado pelo outro", diz Newton.
A mostra contrapõe um mundo particular (Us, nós em inglês; Helmut e June) e um universo geral (Them, eles, as fotos de celebridades). São retratos e auto-retratos que não parecem perseguir nenhuma verdade particular - nem o senso do registro "fiel" nem um aspecto especialmente particular da aparência de alguém.
O que transparece com mais força é a personalidade, um certo elã filosófico. A gravata amarrada ao pescoço é apenas um detalhe na foto de Timothy Leary, mas os sulcos ao redor dos olhos e sua pose de fichado em delegacia mostram mais de sua personalidade. Gaultier com cabelo moicano sobre um telhado, olhando para uma cidade como um punk de periferia, também é elucidativo.
Uma profusão de peladões - Helmut e a mulher à frente - espalha-se pela mostra. Aqui também não é uma nudez glamourizada
pelo contrário. Há um anti-erotismo calculado, tanto nas fotos em que os "atores" exibem exuberância física quanto naquelas em que parecem um tanto decrépitos. Até nisso, Newton esteve à frente do seu tempo: desafiou cânones de gosto e padrões de avaliação estética - e ainda está à frente.


