Maria Callas morreu duas vezes. A primeira morte vitimou sua voz. O processo estava latente já em 1957 e em 1977. O atestado de óbito registra problemas cardíacos, mas seu primeiro marido, Giovanni Battista Meneghini, desconfia de suicídio. As duas mortes estão, de certo modo, estreitamente relacionadas. Callas, diz o maestro Nicola Rescigno, não compreendeu de início a extensão da tragédia que se abateu sobre suas cordas vocais. Reagiu de maneira desencontrada. Depois, deprimiu-se. Tornou-se uma consumidora obsessiva de tranquilizantes.
Quando sua rotina se tornou mais mundana, não foi apenas a voz que padeceu. Foi toda uma maravilhosa maquinaria que entrou em pane’’, disse Rescigno. Ele se refere especificamente ao período - verão de 1959 - em que Callas conhece o armador grego Aristóteles Onassis, um notório ignorante nos meandros da arte lírica. De soprano e festejada prima-dona, ela passa a integrar o ‘‘jet set’’ internacional.
Uma de suas 20 biógrafas, Arianna Stassinopoulos, insinua que Callas se perdeu ao se deixar manipular pelos homens. Meneghini, marido e empresário oficioso, levou seu potencial artístico à exaustão, fazendo-a cumprir uma agenda artística excessiva. Onassis encarregou-se de concluir o estrago. A grande síntese sobre o que aconteceu com Callas foi escrita por Will Crutchfield, em longo artigo de novembro de 1995 na revista ‘‘The New
Yorker’’.
DeselegânciaO processo de decadência vocal apresentou os primeiros sintomas em 1957, quando a soprano tinha apenas 34 anos incompletos. Evitou uma récita da ‘‘Sonnambula’’, contratada à sua revelia, no Festival de Edimburgo (Escócia). Seguem-se negociações para reduzir o número de suas apresentações na Ópera de San Francisco. Em 1958, não consegue cantar até o fim uma ‘‘Norma’’, no Scalla de Milão. O presidente da República Italiana estava na platéia.
A imprensa acusou Callas de grosseria e deselegância. Ninguém percebia, na época, que sua voz estava enferma. Uma cantora de ópera consegue frequentemente atuar até os 55 ou 60 anos. A tragédia estava no fato de um colapso precoce ocorrer justamente com o maior fenômeno do mundo lírico no século 20.
Em seu artigo no ‘‘The New Yorker’’, Crutchfield descreve o quanto, nos anos 50, a ascensão de Callas modificou o panorama operístico. Algo equivalente, neste século, à carreira do barítono russo Feodor Chaliapin (1873-1938). Não era apenas uma soprano criativa. Possuía uma técnica de ‘‘crescendo’’ sutil ao atingir as notas. Sabia uni-las com delicadeza (legatos). Não precisava de duas ou três frases de aquecimento para se lançar em direção aos agudos.
A voz de Callas morreu bem antes da morte da própria artista, que passou a viver uma existência isolada, quase patética. (J.B.N.)

mockup