'A Dançarina e o Ladrão' tropeça nos clichês
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Rafael Ceribelli <br> <br> Reportagem Local 
Com uma narrativa que envolve um grande assalto, dois bandidos de personalidades diferentes e reviravoltas amorosas, o filme espanhol ''A Dançarina e o Ladrão'' - estreia desta semana na programação do Cine Com-Tour/UEL - tem uma proposta interessante, mas acaba tropeçando no meio da sua própria trama, desperdiçando seus pontos fortes em uma história fraca e repleta de clichês.
Logo no começo do longa, somos apresentados aos seus dois protagonistas, que não se conhecem e têm as histórias entrelaçadas inicialmente apenas pelo fato de que ambos, através de uma decisão judicial, foram liberados da cadeia cumprindo apenas parte da pena. Um deles é o famoso Nicólas Vergara Grey (Ricardo Darín, ótimo no papel), um renomado ladrão de bancos, reconhecido pelo seu talento em abrir qualquer tipo de cofre. Outro é o jovem Ángel Santiago (Abey Ayala), um malandro esquisito, meio hiperativo e cheio de planos mirabolantes.
Escrito por três mãos diferentes (o que nunca é bom sinal), o roteiro é, muitas vezes, inconsistente. Enquanto ficamos genuinamente interessados pelo drama de Vergara, pelo seu conflito familiar e personalidade contida, o personagem de Ángel é muito prejudicado pela sua história bobinha, que começa com ele encontrando - no meio da rua - uma mendiga muda chamada Victoria (Miranda Bodenhofer), para se interessar instantaneamente por ela e, depois de alguns minutos dividindo um sanduíche e correndo na chuva, se apaixonar completamente. Ah, e nesse passeio mágico, descobrimos que ela também é uma ótima bailarina.
Passeando entre uma história e outra, o filme segue por altos e baixos muito bem definidos - é muito satisfatório enquanto acompanhamos Vergara tentando reconquistar a confiança de sua mulher Teresa (Ariadna Gil) e cobrando dívidas antigas de seu parceiro no crime, Monasterio (Luis Gnecco), mas assim que surge na tela o improvável casal Ángel e Victoria, a história começa a se perder. Chega a ser embaraçosa a cena em que o ladrão pergunta para a muda sobre seus pais, desencadeando uma reação exagerada e pouco convincente.
A vida dos dois ladrões finalmente se encontra quando Ángel rastreia e propõe para o 'mestre' Vergara um novo assalto, que foi planejado cuidadosamente na cadeia por ele e pelo perspicaz anão Lira, um bandido que ''tem a astúcia inversamente proporcional ao seu tamanho''. Mesmo com um roteiro cambaleante, a direção afiada de Fernando Trueba consegue manter, até certo ponto, uma coerência agradável no decorrer do filme - com alguns cortes rápidos e sacadas inteligentes, o planejamento do roubo tem sequências divertidas, que prendem a atenção e inovam na montagem.
Enquanto a força central do elenco se mantém sobre a interpretação firme de Darín como um experiente ladrão apaixonado pela ex-mulher, a sua maior fraqueza está na falta de simpatia de Miranda, que pode até dançar bem, mas apresenta uma atuação sofrível em todos seus momentos na tela, tendo sua fragilidade como atriz exposta principalmente em pontos que deveriam ser dramaticamente relevantes para o filme. Seja quando ela corre (em câmera lenta) até o mar ou anda a cavalo (isso mesmo, eles têm um cavalo) no centro de Santiago, isso nunca causa o impacto necessário, e é impossível sentir empatia por uma personagem que soa tão falsa.
Com alguns bons momentos, mas prejudicado por atuações exageradas e um final completamente inadequado, ''A Dançarina e o Ladrão'' não consegue se manter fiel ao próprio ritmo que desenvolve em sua trama. É uma pena que, depois de começar com alguns bons passos, o filme leve um tombo monumental em seu terceiro ato, o que prejudica irremediavelmente sua perfomance. A sensação que fica é de que, se o longa se chamasse apenas ''O Ladrão'' - dispensando o melodrama de uma história de amor forçada e mal executada - o resultado final poderia ter sido muito melhor.


