A dança segundo Stephen Petronio
Mario CesarStephen Petronio: ‘‘Not Garden é um diálogo entre a beleza e o que pode apagá-la’’A linguagem de movimentos dos dançarinos se inicia na pélvis e sobe pelo corpo em onda, para depois descer em sentido contrário. ‘‘Precisamos descobrir e aprender como retirar informações do próprio corpo, valorizar a dança, usar a tecnologia para isso. Tornar a expressão corporal mais importante nas nossas vidas.’’ As informações são do bailarino, coreógrafo e diretor Stephen Petronio, que está, com sua companhia, em Londrina apresentando o espetáculo ‘‘Not Garden’’, no Filo.
‘‘Procuro criar a expressão do momento, de Nova York, onde moro. A partir disso, englobo todas as outras informações, como a história, a literatura e o circo’’, acrescenta.
Segundo Stephen, há várias formas de se fazer dança. ‘‘Eu imagino uma questão e passo aos dançarinos. Discutimos e juntos procuramos a solução. Os bailarinos improvisam, os movimentos são gravados e depois memorizados.’’
Às vezes, o coreógrafo cria os movimentos de forma diferente. Experimenta sozinho alguma coisa que viu na rua, memoriza e passa ao grupo. ‘‘Se alguma coisa atravessa meu caminho, memorizo essa imagem’’, conta. Nos ensaios, todos dançam e a coreografia é montada de partes de cada um, como numa negociação.
As referências para ‘‘Not Garden’’ surgiram das idéias que evocam o século XX. O ponto de partida foi o coreógrafo George Balanchine, considerado a mais importante referência do nosso século. ‘‘Estudamos os vídeos, e percebemos a beleza sendo convertida em direção ao próximo milênio.’’
As coreografias de Stephen estão em diversos pontos do palco. ‘‘Estou procurando meios de mostrar as coisas de diferentes focos. As pessoas devem escolher um ponto e segui-lo. Imagino que essa seja também uma forma de conhecer melhor a si mesmo.’’ Em ‘‘Not Garden’’, para dar a idéia do ‘‘Inferno’’ de Dante, Stephen coloca três homens em frente às bailarinas que dançam. ‘‘É um diálogo entre a beleza e o que pode apagá-la.’’
Petronio afirma que existe uma intenção, um ideal a ser atingido. As informações para o resultado final vêm das diferentes formações dos bailarinos e de muita leitura. ‘‘Acho essencial ler muito, tanto sobre dança quanto literatura. A leitura influencia cada molécula do corpo e consequentemente, os movimentos. Os melhores dançarinos devem ser inteligentes e muito sexys.’’
A companhia Stephen Petronio’s está formada desde 1984. O próprio Stephen dança há mais de 20 anos. Ele foi o primeiro homem a dançar com o grupo de Trisha Brown. Hoje, sua técnica inventiva e seu carisma encantam as mais exigentes platéias.
Mas Petronio ressente-se de que a dança, especialmente no Estados Unidos, é menos popular do que no início do século. ‘‘O governo americano não incentiva, quase não patrocina. Na América somos tratados como seres de segunda categoria. É interessante observar que no Brasil somos reverenciados como estrelas de cinema. Sentimo-nos em casa, totalmente à vontade. Adoramos.’’
Para a próxima temporada, Stephen está coreografando o espetáculo ‘‘The No Project’’. A música foi encomendada a Michael Nyman e os figurinos a TBA. ‘‘Vou desenvolver o que começei em ‘Not Garden’.’’(E.M.C.)

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