Com um pé na tradição e outro no espetáculo, a bailarina e coreógrafa Rhamza Alli prepara suas alunas da escola de dança do ventre para estrear em Londrina, em dezembro, o balé ''Egypta''. De concepção futurista, a montagem é uma amostra dos caminhos contemporâneos percorridos por esta arte milenar que nasceu de forma ritualística no Oriente e encontrou no Ocidente um formato artístico com incursões bem exploradas pela mídia.
A sensualidade e o exotismo são os ingredientes que transformam a dança do ventre numa atração de grande apelo popular, seduzindo o público de telenovelas como ''O Clone'' - exibida atualmente pela Rede Globo - ou cativando as platéias da ''Feiticeira'' Joana Prado, a loura sinuosa que mexe com as fantasias masculinas com movimentos de seios e quadris.
Na sua origem, a dança do ventre não é apenas um artifício de sedução. A estética que põe barrigas à mostra, véus sobre o corpo e até mesmo pés equilibrados sobre saltos altos é uma concepção ocidental da dança. Ou, mais ainda, uma concepção hollywoodiana de uma arte tribal.
Rhamza Alli explica que a dança do ventre é a primeira dança feminina de que se têm notícia. Nascida possivelmente no norte da Índia, há cerca de 3 mil anos, ela foi levada pelos ciganos a outros países, expandido-se pela Ásia e a África até atingir o Ocidente através das bailarinas que faziam demonstrações em feiras e locais públicos.
Para os povos do Oriente a dança sempre foi uma celebração da vida. Nas sociedades tribais era tida como expressão da alegria, servindo para comemorar o nascimento ou o casamento de forma ritualística. Por isto nos países árabes dançam os velhos, os moços, as crianças e também não há limite de idade para as mulheres que querem praticar a Rakis el Sharqi, que em bom português significa dança do ventre.
Na passagem do século 19 para o século 20, os exploradores europeus e americanos que se aventuraram pela África atrás dos safáris e dos tesouros viram a dança peculiar nas ruas do Cairo. Não demorou muito e as performances migraram para os clubes noturnos. Sem dúvida, as mulheres que dominavam aqueles gestos sinuosos eram dotadas de um poder que deixava os ocidentais extasiados ou literalmente ''de quatro''.
Na época, nos países puritanos da Europa e na América, as mulheres não ousavam tanto. Como diz Rhamza Alli, ''os movimentos de vibrações, ondulações e torções do corpo pareciam coisa do outro mundo''. E realmente eram.
A primeira bailarina oriental a se apresentar nos Estados Unidos foi a síria Little Egypt, cujo nome verdadeiro era Fahreda Mahzan. Ela se exibiu na Feira de Chicago em 1893. Não é preciso dizer que os tornozelos à mostra e os intensos movimentos de quadris chocaram as famílias. Em 1910, a bailarina americana Mary Garden também apresentou uma versão da dança dos sete véus em seu país, um verdadeiro ultraje aos bons costumes. De qualquer forma, mesmo sem entender direito o significado daquela dança exótica, o Ocidente se renderia ao Oriente de modo irremediável. O que pouca gente sabe é que alguns desses movimentos sensualíssimos são treinados pelas adolescentes da Síria e do Líbano, por exemplo, como exercícios para facilitar a gestação e o parto em sua vida adulta. Alheios a estes costumes, os ocidentais enxergaram na dança do ventre apenas o entretenimento. Não demorou muito para aquela forma de expressão ser absorvida pelo cinema, no começo do século uma indústria cultural emergente que, pode-se afirmar, ''inventou'' a dança do ventre dentro da concepção que prevalece hoje na mídia: a de arte sensual com glamour de espetáculo.
Entre os anos 20 e 50, o cinema americano importou algumas estrelas egípcias. Entre as mais conhecidas estão as bailarinas Taheyya Karyoka, Naima Akef e Samya Gamal (leia texto nesta página). Elas saíram dos clubes do Cairo para brilhar nas telas.
Foi em Hollywood que os vestidos foram substituídos pelas roupas de duas peças, os pés descalços - como manda a tradição tribal de dançar em contato com o solo - ganharam sapatilhas ou sapatos de salto agulha. Some-se a isso o brilho das bijuterias, os véus que mais revelam do que escondem o corpo e os ritmos alucinantes. Está criada a imagem que, através do século 20, consagrou a dança do ventre como um produto de consumo, temperado com a malícia e o charme do cinema americano.
Por outro lado, o que muita gente pergunta, é como uma dança tão feminina pôde florescer em países onde as mulheres são obrigadas a se cobrir da cabeça aos pés. Acontece que a cultura árabe, em sua essência, é prazerosa. Inclui a boa comida, a bebida, o canto e a dança como hábitos a serem compartilhados em família, sem restrição. O que se vê hoje no formato moralista do fundamentalismo islâmico também é uma ''invenção'' recente. Nasceu no Egito, na década de 50, como um modo de resistência à modernização - ou ocidentalização - dos costumes e deu no que todo mundo sabe.
Os prazeres, como mostram aspectos da cultura árabe, não são encarados exatamente como pecado. A visão da mulher como um objeto de consumo e a dança do ventre como simples expressão do erotismo é uma criação da mídia, pródiga em transformar arte em cifrões. Como lembra Rhamza Alli, ''todos os movimentos da dança do ventre têm função e significado'', não são meros fatores de atração sexual, embora a feminilidade dos gestos seja naturalmente capaz de transformar a terra num paraíso de delicadas delícias ao qual os homens, do Oriente ao Ocidente, simplesmente não resistem.

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