O público ainda não tinha tomado o seu lugar na praça, quando o espetáculo começou. Aos primeiros passos dos bailarinos cariocas da Focus Cia de Dança, no final da manhã de terça-feira, em Toledo, dentro da III Mostra de Dança Contemporânea Unipar, o interesse pelo novo e o desconhecido transformou todos os que passavam em platéia.
Muitos não sabiam direito do que se tratava, como seo José Geraldo Ferreira, 50 anos. Ele mora em Cascavel, mas resolver fazer uma paradinha para descansar na praça e deu de cara com a apresentação do espetáculo de rua ''Outro Lugar''. ''Não sei bem o que vai acontecer. Cheguei aqui e vi essa movimentação'', comentou.
Antes mesmo de José Geraldo se dar conta, a Praça Willy Barth se tornou palco dos intérpretes. Justamente a rua, com sua linguagem, seus personagens e sua incoerência de gente que passa despercebida, anônima, parecendo estar sem direção, inspirou a coreografia criada e dirigida pelo coreógrafo Alex Neoral. Para o diretor, além de extrair do palco a dança, levando para outros espaços, ''Outro Lugar'' possibilita ao público uma visão particular. ''A grande diferença é que o público está mais perto de você e o elenco acaba ficando mais exposto'', avaliou Neoral.
A coreografia tem um ritmo crescente seguido pelos olhos rápidos da platéia, que precisa encontrar outro olhar para ver que, na hora do almoço, no intervalo da escola, a caminho de casa, é possível parar em outro lugar - proposto pela dança -, diferente das obrigações diárias.
Nesse lugar cabem todo tipo de espectadores: a jovem senhora, criança curiosa, o vendedor de algodão doce, que espera pelo freguês, a vendedora de loja, dando um tempo nas liquidações. Uma platéia, que tem em seo Quirino Giacomini, um dos seus mais atentos integrantes. ''Muito boa essa dança. Esse negócio é assim... como os bailes que a gente dançava, né?'', perguntou o aposentado de 76 anos.
Para a vendedora Jéssica Magalhães, 17 anos, o almoço teve que esperar até o último minuto dos movimentos sincronizados do elenco. Ela disse que achou maravilhosa a experiência de ter um outro olhar para as artes cênicas, representada pela dança, que invadiu o seu dia inesperadamente, mudando o próprio cotidiano. A surpresa foi tão boa que ela parou de se incomodar com o relógio, uma vez que a moradora de Toledo não tinha mais pressa de voltar à rotina.

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