A DANÇA EM DISCUSSÃO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de fevereiro de 2001
Simone Mattos De Curitiba 
As duas grandes estrelas do 1º Encontro das Novas Dramaturgias, que está acontecendo no Teatro Guaíra, irão se encontrar num aguardado debate na manhã de domingo. A Folha tentou antecipar o confronto entre a paulista Vera Sala e a japonesa Setsuko Yamada, ontem pela manhã, mas Setsuko teve problemas de saúde e não pode comparecer.
A conversa acabou sendo apenas entre Vera e a mediadora do debate, Christine Greiner, responsável também pela vinda das bailarinas a Curitiba. Elas falaram sobre o atual momento da dança no Brasil, os novos talentos e o papel do professor na formação de novos bailarinos. Acompanhe os melhores trechos da entrevista.
É a primeira vez que Vera Salas e Setsuko Yamada se encontram pessoalmente. Como está sendo esta convivência?
Vera Sala - É muito interessante porque são duas pessoas que têm quase a mesma idade, ambas têm um tempo grande de vivência, de caminhos percorridos, de histórias. São trabalhos de toda uma vida. Ao mesmo tempo, são caminhos diferentes. Eu não conheço profundamente o trabalho da Setsuko para dizer o quanto somos próximas ou diferentes. O que eu sei é que nós duas estamos trabalhando com pesquisas de linguagem e ambas temos nosso caminho próprio.
O que o público poderá esperar do debate entre vocês no domingo?
Cada uma estará falando do seu processo de criação, de como constrói seu trabalho e da sua trajetória...
Christine Greiner - Quando pensamos no debate, pensamos exatamente nesta possibilidade das duas estarem se encontrando, falando de seus processos de criação. Mais que isso, o mais interessante será a troca de idéias na hora. Elas têm percursos diferentes, mas alguns encontros interessantes. Em comum, nenhuma delas quer repetir fórmulas prontas. Ambas são investigadoras do corpo. Para nós é um luxo assistir a uma conversa destas. É algo muito raro porque eu nunca vi nada assim no Brasil...
Você fala sobre o seu processo de criação. Como ele está hoje?
Vera Sala - Eu trabalho muito com improvisação e a cada trabalho que faço eu tenho que adquirir novas coisas no corpo, aprender coisas diferentes que eu não tinha antes.
Descobrir novas potencialidades?
Vera Sala - É, eu tenho que aprender outros movimentos e outras maneiras de estar em cena. Eu não tenho um vocabulário único, pronto, como no balé clássico por exemplo. Ali, você apenas reformula aquele vocabulário. Eu não, a cada trabalho eu trago o vocabulário que eu já tinha, mas tenho que acrescentar outras coisas. Então, eu trabalho no sentido do meu corpo aprender a fazer coisas que ele não sabia fazer. O processo de improvisação me ajuda a reelaborar este material.
Este é hoje o papel do professor de dança?
Vera Sala - Tenho trabalhado no sentido de dar caminhos para as pessoas explorarem o corpo e descobrirem outras maneiras de trabalhar este corpo. Nas aulas, eu ajudo as pessoas a descobrirem o seu próprio vocabulário corporal.
Qual é o corpo que se exige hoje de um bailarino?
Vera Sala - Não há um corpo específico, mas sim uma diversidade de caminhos. Não existe o corpo, mas sim uma infinidade de possibilidades.
Como o 1º Encontro das Novas Dramaturgias do Corpo foi formatado?
Christine Greiner - A possibilidade de muita gente participar do workshop faz com que o encontro não seja tão superficial. É um modelo de encontro bem interessante, em que as pessoas saem não só tendo participado de um entretenimento, mas tendo sido movidas por ele.
Ele deverá se repetir?
Christine Greiner - Sim, por isso ganhou o nome de 1º Encontro... Ele deverá ser anual, mas não em formato de grande festival. Deverá ser sempre um encontro de grandes criadores, que permita a discussão e o aprofundamento dos temas, com muita reflexão sobre as informações.
Qual tem sido a receptividade do público?
Christine Greiner - Anteontem, no espetáculo da Vera, tinha uma quantidade incrível de gente com os olhos marejados de lágrimas. A receptividade tem sido máxima. Os workshops e palestras estão lotados.
Como está hoje a dança no Brasil?
Vera Sala - Cresceu muito, têm muitas pessoas jovens com um trabalho já bem desenvolvido e propostas bem interessantes. Eu acho que a qualidade está crescendo bastante.
Dá para citar alguns nomes destes novos talentos?
Vera Sala - Não, é muita gente... Eu vou acabar deixando pessoas boas de fora.


