As duas grandes estrelas do 1º Encontro das Novas Dramaturgias, que está acontecendo no Teatro Guaíra, irão se encontrar num aguardado debate na manhã de domingo. A Folha tentou antecipar o confronto entre a paulista Vera Sala e a japonesa Setsuko Yamada, ontem pela manhã, mas Setsuko teve problemas de saúde e não pode comparecer.
A conversa acabou sendo apenas entre Vera e a mediadora do debate, Christine Greiner, responsável também pela vinda das bailarinas a Curitiba. Elas falaram sobre o atual momento da dança no Brasil, os novos talentos e o papel do professor na formação de novos bailarinos. Acompanhe os melhores trechos da entrevista.
É a primeira vez que Vera Salas e Setsuko Yamada se encontram pessoalmente. Como está sendo esta convivência?
Vera Sala - É muito interessante porque são duas pessoas que têm quase a mesma idade, ambas têm um tempo grande de vivência, de caminhos percorridos, de histórias. São trabalhos de toda uma vida. Ao mesmo tempo, são caminhos diferentes. Eu não conheço profundamente o trabalho da Setsuko para dizer o quanto somos próximas ou diferentes. O que eu sei é que nós duas estamos trabalhando com pesquisas de linguagem e ambas temos nosso caminho próprio.
O que o público poderá esperar do debate entre vocês no domingo?
Cada uma estará falando do seu processo de criação, de como constrói seu trabalho e da sua trajetória...
Christine Greiner - Quando pensamos no debate, pensamos exatamente nesta possibilidade das duas estarem se encontrando, falando de seus processos de criação. Mais que isso, o mais interessante será a troca de idéias na hora. Elas têm percursos diferentes, mas alguns encontros interessantes. Em comum, nenhuma delas quer repetir fórmulas prontas. Ambas são investigadoras do corpo. Para nós é um luxo assistir a uma conversa destas. É algo muito raro porque eu nunca vi nada assim no Brasil...
Você fala sobre o seu processo de criação. Como ele está hoje?
Vera Sala - Eu trabalho muito com improvisação e a cada trabalho que faço eu tenho que adquirir novas coisas no corpo, aprender coisas diferentes que eu não tinha antes.
Descobrir novas potencialidades?
Vera Sala - É, eu tenho que aprender outros movimentos e outras maneiras de estar em cena. Eu não tenho um vocabulário único, pronto, como no balé clássico por exemplo. Ali, você apenas reformula aquele vocabulário. Eu não, a cada trabalho eu trago o vocabulário que eu já tinha, mas tenho que acrescentar outras coisas. Então, eu trabalho no sentido do meu corpo aprender a fazer coisas que ele não sabia fazer. O processo de improvisação me ajuda a reelaborar este material.
Este é hoje o papel do professor de dança?
Vera Sala - Tenho trabalhado no sentido de dar caminhos para as pessoas explorarem o corpo e descobrirem outras maneiras de trabalhar este corpo. Nas aulas, eu ajudo as pessoas a descobrirem o seu próprio vocabulário corporal.
Qual é o corpo que se exige hoje de um bailarino?
Vera Sala - Não há um corpo específico, mas sim uma diversidade de caminhos. Não existe ‘‘o corpo’’, mas sim uma infinidade de possibilidades.
Como o 1º Encontro das Novas Dramaturgias do Corpo foi formatado?
Christine Greiner - A possibilidade de muita gente participar do workshop faz com que o encontro não seja tão superficial. É um modelo de encontro bem interessante, em que as pessoas saem não só tendo participado de um entretenimento, mas tendo sido movidas por ele.
Ele deverá se repetir?
Christine Greiner - Sim, por isso ganhou o nome de 1º Encontro... Ele deverá ser anual, mas não em formato de grande festival. Deverá ser sempre um encontro de grandes criadores, que permita a discussão e o aprofundamento dos temas, com muita reflexão sobre as informações.
Qual tem sido a receptividade do público?
Christine Greiner - Anteontem, no espetáculo da Vera, tinha uma quantidade incrível de gente com os olhos marejados de lágrimas. A receptividade tem sido máxima. Os workshops e palestras estão lotados.
Como está hoje a dança no Brasil?
Vera Sala - Cresceu muito, têm muitas pessoas jovens com um trabalho já bem desenvolvido e propostas bem interessantes. Eu acho que a qualidade está crescendo bastante.
Dá para citar alguns nomes destes novos talentos?
Vera Sala - Não, é muita gente... Eu vou acabar deixando pessoas boas de fora.

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