Fiz uma aula de Tai Chi Chuan. Adorei. Acho linda essa dança que harmoniza o indivíduo com o universo. Gosto de ver as pessoas fazendo movimentos circulares, afinal o mundo é redondo, não é? E a gente se concentra numa coreografia que alinha o corpo e a mente. O Tai Chi é uma suave arte marcial, que pode servir para o ataque e a defesa. Mas não estou precisando exatamente disso, prefiro ver tudo como atividade lúdica. Apenas insinuo movimentos marciais e fico ali empenhada no meu próprio equilíbrio.
Sei pouco de Tai Chi Chuan. Só o que vejo em filmes nos parques da China, pessoas expandido e recolhendo o corpo num balé. Minhas experiências pessoais mais fortes se resumem a duas reações que tive nas ocasiões em que pratiquei o Tai Chi. Na primeira vez, há uns 15 anos, sai de uma aula ensopada de suor. Nunca meu corpo verteu tanta água depois de exercícios lentos. Para mim, foi um banho de dentro para fora, águas paradas se transformando em água corrente, me limpando. Foi muito impressionante este banho sem chuveiro.
Agora, depois de uma primeira aula esta semana, cheguei em casa e dormi profundamente. Simplesmente apaguei, de roupa e tudo. Acordei no dia seguinte, sem entender muito bem o que tinha acontecido. Mas muito relaxada, coisa rara para minha mente inquieta que às vezes me traz noites de insônia, cuja única vantagem é escrever, no maior silêncio, num diálogo interno. Muitas vezes salvei minhas noites com um texto.
Os exercícios do Tai Chi têm nomes muito interessantes. Deleito-me com um que se chama "É fácil montar um tigre!" Acho a expressão uma delícia, remete à habilidade e à astúcia. Às vezes em situações difíceis ou divertidas, digo: "É fácil montar um tigre!" Ainda que não se seja, ou tenha que enfrentar um bando deles.
Tenho uma amiga que sempre me adverte: "É fácil montar um tigre, difícil é ficar em cima dele!" Eu acho graça porque, ainda que não consiga ficar sobre um tigre, poder montá-lo já é demais para mim. Como eu, muitas pessoas fazem isso todos os dias, equilibrando-se para cumprir tarefas num tempo cada vez mais curto. Hoje mesmo, enquanto escrevo esta crônica, estou montada num tigre, daqui a uma hora devo chegar ao jornal para um dia de trabalho, contando também com o que crio neste instante.
O exercício de Tai Chi Chuan que tem este nome – "é fácil um tigre" - é feito girando o corpo para o lado, ao mesmo tempo em que desenhamos com as mãos um movimento sinuoso, que desce e sobe. É muito bom alisar o dorso de um animal imaginário, ver seus olhos amarelados, o pelo espesso, os dentes afiados, o focinho elegante como de todos os felinos, as listas exóticas que lembram um quadro surrealista. No fundo, não deixo de achar algumas dificuldades muito poéticas, ainda que elas me mostrem os dentes.

Imagem ilustrativa da imagem A dança do tigre
| Foto: Marco Jacobsen
mockup