‘‘Casa’’, o novo espetáculo da Cia. de Dança Deborah Colker, será apresentado hoje e amanhã em Curitiba
Flávio Colker/DivulgaçãoMovimentando-se numa ‘‘casa’’ de três andares, bailarinos extrapolam os limites da dança como é próprio da Cia Deborah Colker

Antônio Mariano Júnior
De Londrina


A idéia veio quando ela mudou-se para uma casa térrea. Instalou-se e preencheu os espaços com móveis e família. Era final de 97. A partir desta data, a coreógrafa Deborah Colker inaugurava um novo estilo de vida. Daí vieram os dias e com eles o cotidiano e as ações banais a que qualquer ser humano do planeta está sujeito dentro de uma casa – comer, beber, vestir, tomar banho, escovar dentes, ver televisão, sofrer de tédio, roer unhas, cozinhar, ter insônia, ter sonhos, etc, etc, etc.
E a partir de tais observações e sensações, Deborah Colker tirou a matéria-prima para o mais novo espetáculo de sua companhia. Que chama justamente ‘‘Casa’’ e será apresentado hoje e amanhã, no Teatro Guaíra, em Curitiba. A estréia aconteceu em Porto Alegre, no dia 13 de agosto, uma sexta-feira.
Aliás, mais uma vez a Cia. de Dança Deborah Colker escolheu o Sul do País para levar outra empreitada. Acreditam os bailarinos que ares sulistas lhes trazem sorte. E pelo jeito trazem mesmo. Nas três cidades do Sul – além de Porto Alegre, o espetáculo já foi visto em Florianópolis e Joinville – ‘‘Casa’’ foi muitíssimo bem recebido. ‘‘De um lado a superstição e de outro o fato de o Sul ter um padrão de qualidade que dá para a gente avaliar como está o espetáculo’’– explica a coreógrafa. O espetáculo tem patrocínio da Petrobrás.
‘‘Casa’’, como explica Deborah Colker, apontada como a melhor coreógrafa da dança contemporânea brasileira e incensada até mesmo no exterior, é a montagem mais ‘‘dançante’’. Dançante mas com a marca de ousadia da companhia que pode ser resumida no redesenhamento de movimentos e inteligente utilização dos espaços. Assim aconteceu em ‘‘Velox’’ e ‘‘Rota’’, mais recentes peças do repertório da companhia, assim será com ‘‘Casa’’, concebido, dirigido e coreografado por Deborah.
É um espetáculo grandioso. Em todos os sentidos. Em cena, 14 bailarinos que durante uma hora vão mostrar o dia-a-dia de uma casa com passos e gestos. Com doação cênica. Tudo com muita técnica. Um dos destaques é a cenografia criada por Gringo Cardia – ele reproduziu uma casa de três andares com vários compartimentos, medindo sete metros de altura e pesando seis toneladas. A seguir os principais trechos da entrevista que Deborah Coker concedeu com exclusividade à Folha2.
Por que o tema ‘‘Casa’’?
Na verdade essa história começou quando eu me mudei para uma casa, no final de 97. Notei: ‘‘nossa, que coisa interessante é uma casa’’. E pensei também que todo mundo precisa de uma casa, um esconderijo, de um lugar íntimo. E casa fala de espaços, de cotidiano. Pensei: ‘‘vou unir coisas que me fascinam em dança’’. Ou seja, a arquitetura do movimento, a relação do movimento e espaço, a arquitetura, arquitetos e espaços e a dança que arquiteta o movimento. E o cotidiano.
O cotidiano?
É o cotidiano. O que a gente faz numa casa? A gente dorme, cozinha, toma banho, lava mão, troca de roupa, come a unha...
Sofre de tédio...
Sofre de tédio também, não faz nada, brinca, briga, vê televisão, enfim, resolvi fazer nessa casa tudo o que de simples acontece na vida das pessoas. Aliás, isso é uma coisa que me fascina muito em arte: falar sobre a vida comum, sobre o simples.
O material de divulgação sobre o espetáculo diz que você quis lidar com situações do dia-a-dia sem cair na caricatura. De que maneira você fez isso?
Eu ensaiei o espetáculo um ano. Estudei como uma louca para não cair na caricatura mesmo numa casa imaginária. Trabalhei com gestos mas também trabalhei com movimentos abstratos. Consegui com isso não cair na caricatura, no teatrinho, no fácil. E ao mesmo tempo acho que consegui fazer um espetáculo comunicativo. É que eu gosto que o público caminhe junto com a encenação. Eu gosto quando consigo subverter a realidade tornando-a diferente mas ao mesmo tempo próxima das pessoas.
Foi difícil transformar cenas do cotidiano numa casa em dança?
Sinceramente eu confesso na boa que esse foi o espetáculo mais difícil para mim. É um espetáculo que tem uma dramaturgia complicada, um espetáculo em que eu não podia me desviar do assunto ‘‘casa’’ já que não poderia levar ao palco nada que não acontecesse numa casa porque não estaria sendo honesta com a minha proposta.
Você acha que esse espetáculo pega o público onde, em que ou como?
Acho que pega na dinâmica, no sentido da utilização do espaço, da sobreposição dos planos – a gente dança em três andares. Há no cenário uma garagem, uma rampa, uma parede que vira chão, uma garagem que vira quarto, uma casa que vira casa que vira várias casas. Acho também que o espetáculo pega o público no humor e na dança.
Na dança, claro...
‘‘Casa’’ é o espetáculo mais dançado da companhia. É um espetáculo de movimento e de qualidade de movimento.
Você e sua companhia se propõem a que: a acrescentar ou fincar um estilo na dança contemporânea brasileira?
Eu me proponho a acrescentar e nunca me dou por satisfeita. Cada espetáculo deixa novas perguntas para mim. Posso afirmar que tive sucessos como ‘‘Velox’’, como ‘‘Rota’’, como ‘‘Mix’’ mas eu não fico completamente satisfeita. Não quero dar aquilo que esperam de mim porque quero trazer sempre novas investigações, novos questionamentos.
Ser apontada como a melhor coreógrafa brasileira da atualidade é bom?
Olha... Bem, esse tipo de coisa eu sempre falo com a imprensa... Isso fica a cargo do público e da imprensa. Eu diria a você que faço o meu trabalho, que eu não me acomodo. Sou extremamente inquieta. Sempre disse que o bailarino é um atleta no sentido de que ele tem que se superar cada vez mais. Como artista, cada vez mais quero investigar as questões do mundo contemporâneo ou mesmo as inquietações da arte contemporânea. Acho que a dança propõe uma discussão estética e temos que entender como traduzir essas discussões em dança.
Qual seria então a palavra que melhor traduz sua arte?
Transformar o movimento em ação e transformar o movimento em idéia. Eu gosto de pensar a dança. Eu acho que a dança discute a beleza, fala do belo.
Quem é mais fácil de agradar ou convencer: público ou crítica?
Não sei... Confesso que faço meus espetáculos para o público.
Mas os críticos a elogiam e muito...
Mas eu faço espetáculo para as pessoas. E dentre essas pessoas estão incluídos médicos, engenheiros, críticos, jornalistas, jogadores de vôlei, arquitetos, enfim, gosto de pensar no mundo. Aliás, uma outra característica minha é que o mundo das pessoas me interessa.
O balé clássico, no Brasil, é visto por uma pequena parcela. Então, pela lógica, a dança contemporânea é feita para uma platéia mais elitista, certo?
É...Eu acredito que a dança contemporânea é muito nova no Brasil. Na verdade é nova no mundo. O grupo ‘‘Corpo’’ tem 25 anos e isso não forma sequer uma geração... Eu discordo um pouco porque meu público não é elitizado.
Então quem é o seu público?
Meu público...Em ‘‘Velox’’ a gente conseguiu atingir pessoas que não iam ao teatro, pessoas que foram ali instigadas por algo, por uma história, por uma pervesão de imagem...
Ou pelo nome Deborah Colker, não?
Ou pelo nome também. Acho que o nome foi se fazendo. Trabalho com dança há 20 anos dentro de uma linguagem, fosse em show business, com teatro, com TV, com publicidade, com escola de samba... Enfim, fui criando uma marca e o público foi e vai conferir isso. E eu fico feliz porque acho que a dança não é feita por poucos nem para poucos. A obrigação nossa, pessoal de dança, é aumentar esse público, fazer um trabalho de formação de platéia e provar que dança é entrenimento. E prazer. Dança é também um bom negócio. E nesse ponto, viva a Petrobrás que está me patrocinando e me dando a possibilidade de ser uma pessoa emblemática, hoje, na dança. Dança é para muitos.
•‘‘Casa’’, espetáculo com a Cia. de Dança Deborah Colker. Direção, criação e cenografia: Deborah Colker. Hoje (às 21 horas) e amanhã (às 19 horas), no Teatro Guaíra, em Curitiba (Praça Santos Andrade, s/n). Ingressos a R$ 20,00 (platéia e primeiro balcão) e R$ 15,00 (segundo balcão). Ponto de venda: Ticket Center, do Shopping Mueller. Direção de arte: Gringo Cardia. Direção Musical: Berna Ceppas, Alexandre Kassin e Sérgio Meckler. Iluminação: Jorginho de Carvalho. Figurinos: Yamê Reis. Concepção: Deborah Colker e Flávio Colker.

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