A dança de um arco-íris
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de setembro de 2016
Célia Musilli<br>Reportagem Local 



"Corpo Sobre Tela", apresentado pelo bailarino Marcos Abranches no Filo, nos dias 6 e 7, foi um dos espetáculos mais emocionantes da edição que termina neste fim de semana. Para assisti-lo, foi preciso esquecer tudo o que já se viu em matéria de dança, mais que isso, foi preciso esquecer tudo o que se sabe sobre a conexão de linguagens. O bailarino e corégrafo apresentou-se num constante deslizamento entre tintas e cores, usou o corpo como pincel, transformou-se em obra, foi pintor e pintura ao mesmo tempo. Seu espetáculo trouxe ainda uma trilha eletrônica e um cenário contemporâneo feito com as próprias pinturas que ele faz em cena.
Jogando tinta sobre o próprio corpo criou belas imagens, sua pele foi o suporte, além do papel branco, em tamanho gigante, no qual rolou e deslizou besuntado de tinta, numa integração física e emocional com a arte que deixou a plateia em estado de graça.
Às vezes, subia num pedestal para se transformar em escultura, coberto de tinta reproduzia posições clássicas e encarava o público com expressões de humor. Ao vê-lo rolar sobre grandes pedaços de papel era possível pensar na obra do norte-americano Paul Jackson Pollock, que também não usava pincéis e fez telas imensas, criando imagens a partir de pingos aleatórios de tinta. Mas o espetáculo de Abranches foi inspirado na obra do pintor irlandês Francis Bacon, numa construção que passa pela leitura que o filósofo Gilles Deleuze fez de Bacon, tratando a sua obra como "um bloco de sensações."
Abranches se apresenta no Brasil e no exterior. No espetáculo, além da imensa tela deixada no chão, produz também uma tela comum, composta pela tinta lançada ao acaso para compor formas abstratas. Como parte da sonoplastia, sua voz chega ao público com algumas perguntas: "Qual a cor da sua vida?" Questões tão inusitadas quanto poéticas.
Ele já trabalhou com grandes bailarinos e coreógrafos, mas sua principal referência é o trabalho visceral de dança que desenvolveu a partir de uma deficiência. Marcos Abranches nasceu prematuro e de um parto complicado que deixou sequelas que não comprometem sua inteligência, mas se manifestam em movimentos involuntários da face e do membros. São estes movimentos que o fizeram desenvolver uma linguagem corporal própria: uma dança que parece nascer da explosão de um arco-íris vivo, nascido no corpo de um homem. Sua "dança pintada" ou sua "pintura dançada" amplia sentidos, poetiza o olhar sobre a cor e os movimentos.


