A dança da indignação
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de maio de 2001
Francelino França De Londrina 
A realidade concreta dos excluídos cariocas chega até o Filo 2001 sob a chancela de Carmem Luz, artista múltipla e idealizadora do projeto de resgate da cidadania de jovens em situação de risco. Atuando na Cia. Étnica, no subúrbio carioca do Andaraí, ela concebeu o espetáculo Cobertores, que entrelaça teatro e dança. Nesse espetáculo de denúncia social sobre crianças e jovens que vivem sem abrigo, a diretora provoca a indignação no público para um problema urbano cada vez mais recorrente, dos menores abandonados pelas famílias e sociedade.
Carmem Luz materializou no neocroncretismo de Hélio Oiticica o elemento ideal para retratar um cotidiano sombrio. Ao recorrer aos cobertores, basicamente único elemento cênico, ela promoveu inúmeras utilidades às peças. Primeiramente monocromáticos e ameaçadores, como as noites perigosas, os cobertores foram utilizados como escudo, abrigo e serviram para transformar os personagens em seres alados.
Ao absorver a estética e ética de Oiticica com seus parangolés, Carmem Luz usou um estandarte que traduz com propriedade a situação de risco em que vivem os jovens estigmatizados, sem um caminho redentor. No espetáculo simples e direto, os personagens meninos de rua embarcam em seus delírios solitários promovidos pelo único lenitivo que encontram: as drogas. Os perigos que seduzem os desabrigados orbitam e atacam na calada da noite. Chega o pregador com suas verdades e seduz um dos garotos. Surgem os encapuzados que os espancam em sacos de lixo. Desvalorizados e amontoados, os habitantes sobreviventes das ruas voltam às viagens das drogas, num eterno retorno.
Mas é através da dança que os meninos massacrados contam sua indignação com eficácia. Nessa narrativa eloquente, as coreografias revelaram talentos que seriam dizimados. O forte referencial da cultura sonora carioca se fez presente no espetáculo. A atitude funk e a postura desafiantes dos jovens, traduzem as marcas da violência. Com a dança, a Cia. Étnica exorcizou a violência que se apresenta de várias faceta. Nesse grito de alerta, a arte se apresenta como o caminho mais curto para recuperar a auto-estima. Na sincronia dos movimentos, os talentosos garotos sinalizaram que o sol pode brilhar para todos. É apenas uma questão de oportunidade.


