Reprodução‘‘Amrik’’ é um dos trabalhos mais transparentes da escritora Ana MirandaAmina era uma menina nas colinas do Líbano. Aprendeu a dança tradicional árabe, a dança do ventre, com a mãe e a avó, também dançarinas. Durante a invasão turca, seu tio precisou deixar o país para escapar da perseguição. Cego, pede ao pai da pequena Amina que lhe conceda um de seus filhos para ser seus olhos durante a fuga, seu guia. Este não deseja se desfazer dos filhos homens e lhe entrega a única filha, aquela que lhe faz lembrar da esposa foragida, a chamada adúltera.
Amina e o tio, Naim, deixam o país num navio com destino a América, aos Estados Unidos. Ao desembarcarem, descobrem que não estão na América do Norte, mas na América do Sul, no Brasil. Os responsáveis do navio simplesmente afirmam que tudo é América, ou ‘‘amrik’’ na língua árabe. Amina e Naim, como outros centenas de imigrantes libaneses, se instalam na cidade de São Paulo do fim do século 18.
Este é o enredo inicial de ‘‘Amrik’’ novo romance da Ana Miranda lançado pela Editora Companhia das Letras. Partindo da saga dos imigrantes libaneses no Brasil, a escritora narra a história de Amina, mulher de forte personalidade e repleta de sensualidade - capaz de levar homens a loucura com sua dança.
Amina, vive o dilema entre o amor de dois homens, Chafic e Abraão. Um que viu apenas uma única vez e nem sabe de sua existência e o outro que jogou a própria vida para o alto por amá-la, enfeitiçado por sua dança. Entre o ritmo de aprender a amar Abraão e esperar que algum dia Chafic apareça em sua cama, Amina desfila os aromas da comida árabe, as cores dos tecidos dos mascate, o som das pulseiras, memórias da infância e o desafio dos imigrantes em trafegar pela São Paulo do século passado sem perder os laços culturais de origem.
Qual homem merece o amor de Amina? Aquele que é cegamente apaixonado e está disposto a tudo para tê-la ao seu lado, ou aquele que nem sabe de sua existência e que deita com todas as mulheres possíveis? A dúvida não tumultua os sentimentos de Amina. Ela sabe que no desejo não há argumento racional, que o amor não comporta exercícios de lógica. Nenhuma opção pode ser apontada como certa, nenhuma pergunta pode ser respondida com exatidão. A alegria, vivacidade e sensualidade é o que realmente rege sua vida, ou seja, a dança.
conteúdo está na linguagem que Ana Miranda utiliza para narrar a história de Amina e, principalmente, suas sensações: ‘‘...o sobradão bem na frente do Mercado Municipal, ambulantes na porta da igreja vendiam cuscuz cubus crucrucruz pinhões nhõenhões mindobis anis codorniz chamariz lambriz liz petigris nariz verniz triztriz bisbis criscriscriz a fumaça dos fogareiros arhtch os odores das lambiscarias se misturavam com o cheiro repugnante vrghfrbhtf do matadouro argh passou na rua um negro com jacás, um sorveteiro cantou Pras goela refrescá E as paquera retemperá, nunca fui ao outro lado da cidade, vivi sempre pela várzea do Carmo feito as rãs, ainda estava conhecendo a cidade, até grandinha, a cidade no mistério da sua concepção...’’
‘‘Amrik’’ é estruturado em pequenos capítulos que não ultrapassam uma página. Cada capítulo é constituído de um único parágrafo onde Ana Mirando desenvolve uma pontuação própria, utilizando apenas vírgulas ou simples eliminando-as. O narrador, Amina, segue o livre fluxo da consciência misturando percepções, pensamentos, sensações, sons, sabores, aromas, memória, fala de pessoas, frases de livros, visões, onomatopéias, sonhos, desejos, palavras da língua árabe e muito mais. Não se trata de um experimentalismo formal, mas de um texto maduro onda cada recurso linguístico é utilizado no momentos certo como suporte de conteúdo.
As semelhanças entre ‘‘Amrik’’ e seu romance anterior, ‘‘Desmundo’’ (1986), são claras. Ambos partem de um ponto de vista feminino, ambos são narrados por estrangeiros em solo brasileiro, ambos são elaborados em pequenos capítulo, ambos trabalham com a linguagem de forma personalizada, ambos usam como pano de fundo um determinado contexto histórico brasileiro, ambos incorporam a estética poética.
Não que Ana Miranda encontrou uma fórmula ideal e insiste nela, mas um estilo personalizado que aponta para a maturidade. ‘‘Amrik’’ e ‘‘Desmundo’’ são seus trabalhos mais transparentes, formam um dueto do universo feminino. Diferente de seus romances históricos ‘‘Boca do Inferno’’ (1989) e ‘‘O Retrato do Rei’’ (1991) que lhe impulsionaram a carreira de escritora. Diferente dos romances seguintes, ‘‘Sem Pecado’’ (1993) e ‘‘A Última Quimera’’ (1995), que percorreram caminhos inconsistentes.

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