A dança a seus pés
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Richard Cragun, um dos nomes mais importantes da dança contemporânea, está dirigindo uma companhia em Curitiba, depois de brilhar no Ballet de Stuttgart
O dia 10 de janeiro de 2000 cairá numa segunda-feira. Se depender da vontade de um dos grandes bailarinos internacionais, o americano Richard Cragun, esta data será histórica para ele e, de certo modo, para o mundo da dança afinal, irá marcar o início das atividades da companhia De Anima Ballet do Paraná. A sede ocupará um casarão do início do século, no centro histórico de Curitiba, atualmente em obras
Richard Cragun está entre os maiores nomes mundiais da dança, e depois de quase 38 anos imperando absoluto como uma de suas grandes estrelas especialmente através do Ballet de Stuttgart, de onde saiu em 1996, para trabalhar na Ópera de Berlim resolveu dar uma virada em sua vida. Deixou o posto de diretor da Ópera e mudou-se para o Brasil. Estou começando do zero, não é uma maravilha?, diz com satisfação, referindo-se ao projeto que pretende montar numa cidade que ele não conhecia até o Natal de 1998. Coisa de paixão fulminante:
Fui tão bem recebido aqui, senti que Curitiba estava me chamando. Eu a escolhi, ou ela me escolheu, não sei. Quando você olha para a cidade, seus parques, os sistemas de transporte, de longe percebe que ela fica muito perto do coração de seus habitantes. Então este é um local muito bom para fazer uma companhia.
A De Anima Ballet do Paraná não será uma simples companhia. Ela vem como divisor de águas, e nascerá grande, com um elenco de 30 solistas e um perfil de balé contemporâneo. Seu patrocinador será a Mercedes-Benz, e possivelmente contará com a participação de um banco. Gostaria de ter um terceiro ou quarto patrocínio; é o que estou procurando agora, afirma. O artista comenta que, artisticamente, está plantando sementes. Daqui a quatro, cinco anos crescerão as árvores, prevê.
As audições para compor o corpo de baile serão realizadas em Curitiba, São Paulo, Rio, Bahia e Porto Alegre. Também serão convidados bailarinos do exterior, inclusive brasileiros que desenvolvem suas carreiras lá fora. O corpo de baile estará dividido em quatro categorias: principal, solo com corpo de baile, corpo de baile com solo e estagiário (somente duas ou quatro vagas). Os salários estarão nas faixas de R$ 2.100,00 a R$ 2.500,00, e mais seguro-saúde.
A notícia de criação do De Anima está movimentando os bastidores da dança em todo o País. Telefonemas chegam das mais variadas localidades, pedindo informações. É natural que isso ocorra, já que este é um empreendimento de Cragun. Ele prevê pelo menos três grandes espetáculos no ano, e viagens pelo Brasil e exterior, valendo-se especialmente dos contatos que tem em vários países.
O prédio onde será a sede só ficará pronto entre março e abril. Até lá os ensaios serão realizados num galpão. Depois a gente muda para cá, planeja o bailarino, apontando para a velha construção. Queremos que as janelas sejam todas de vidro, para que as pessoas possam olhar lá dentro, que vejam nosso trabalho.
O De Anima, porém, não será somente uma companhia que terá seu repertório executado por brilhantes profissionais. O projeto vai além, com uma academia de dança para jovens bailarinos aos homens serão permitidos ingressos até os 24 anos e o incentivo às crianças carentes, no programa Dançando para Não Dançar.
Os professores irão até as favelas para dar aulas ao público mirim. Quando chegarem aos 10 anos de idade, eles estarão aptos para entrar na escola do Teatro Guaíra, ou outra escola profissional, adianta Cragun. Dançando para Não Dançar é uma iniciativa que surgiu no Rio de Janeiro, fez tanto sucesso que se expandiu para diversos Estados. Agora será a vez do Paraná, e contará com apoio do governo estadual.
Os alunos que estudarem na academia terão aulas durante dois anos, e após esse prazo passarão a fazer parte da companhia ou serão indicados para outras. Nesse período eles receberão informações gerais sobre a história da arte, as escolas de dança através dos tempos, quais foram os nomes mais famosos, além dos grandes compositores musicais, etc.
Mas se entre os estudantes houver quem não tenha talento, Richard Cragun abrirá o jogo. A vida de bailarino é muito curta. Quem não tiver qualidade suficiente para sustentar uma carreira, que mude já no começo, ele diz. O aprendizado não será inútil. Digamos que a pessoa tenha o dom de escrever então poderá ser jornalista especializado em balé, em arte. Por que não? De qualquer maneira, seja como for, eles terão que se preparar para a segunda parte de sua vida.
É isso que o próprio Cragun está fazendo caminhando em direção ao outro lado. Toda minha equipe é de ex-bailarinos, frisa. Nós mudamos para outra vida. Infelizmente para muitas pessoas com 35, 40 anos é um choque pensar assim. Mas são muitos os que, mundo afora, estão impossibilitados de dançar, por causa da idade, e isso é um pouco culpa deles mesmos. E também dos diretores de balé, que deveriam ter visão de futuro e preparar os bailarinos para isso.





