A dama do encantado
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de abril de 1998
Bebel Nepomuceno Agência Estado 
Arquivo FolhaOlívia Byington: Não faço o papel da Aracy. No palco quem está cantando é a OlíviaDurante três anos, a cantora Olívia Byington debruçou-se sobre a obra de uma das maiores e mais injustiçadas intérpretes da chamada época de ouro da música brasileira, entre os anos 30 e 50. A pesquisa resultou no disco (apontado como um dos melhores de 1997) e no show A Dama do Encantado, em que ela rende tributo a Aracy de Almeida. Depois de uma trajetória de sucesso por palcos cariocas, Olívia Byington leva seu espetáculo a várias cidades do País.
O interesse pela obra e vida da intérprete preferida de Noel Rosa se deu por acaso. Olívia buscava mais informações sobre o samba, a música dos anos 30 e Noel, quando se deu conta da importância da cantora na obra do Poeta da Vila (Isabel, bairro do Rio de Janeiro). Foi uma paixão à primeira descoberta. Pesquisou em fontes oficiais e não oficiais, adquiriu o pacote de 20 fitas com 320 canções gravadas por Aracy, lançado pela Collectors, e voltou-se inteira para a audição das cerca de 400 interpretações deixadas por ela.
Ela foi vanguarda num estilo de cantar e de ser. Ao contrário do que se insinuava, ela era uma mulher muito feminina, que gostava de biscuit e se vestia com Denner nos anos 60. Lembrar-se dela unicamente como uma jurada rabugenta de programas de calouro de TV é injustiça, afirma.
Estamos assistindo a um resgate de nomes esquecidos da música brasileira. Você pesquisou a obra de Aracy de Almeida, Ney Matogrosso prepara um musical sobre as irmãs Batista, sem falar em um espetáculo sobre Noel, em cartaz no Rio, e um outro sobre Chiquinha Gonzaga, que está em andamento...
Olívia Byington - A música brasileira teve uma época de ouro e muita gente hoje desconhece isso. É preciso resgatar sim, até porque a música que temos hoje é horrível, com muita b...., pouco ritmo e letra pobre.
Você não gosta dos grupos de música que estão aí fazendo sucesso?
Olívia Byington - Acho até bacaninha a dança deles, eu mesma às vezes me pego dançando, mas eles não podem ser o retrato do Brasil. Tem muita gente boa fazendo trabalhos ótimos, que está sendo desprezada. A mídia brasileira é muito burra. Talvez, esses resgastes musicais sirvam para que eles comparem o que é feito hoje com as obras da época de ouro da música no Brasil.
Por que Aracy de Almeida?
Olívia Byington - Eu não pensava em fazer um disco com as músicas dela especificamente. Estava interessada em um trabalho sobre o samba e a música dos anos 30 a 50 e em Noel, quando percebi a importância dela em sua obra, o que me foi confirmado pelo livro de João Máximo (e Carlos Didier), Noel Rosa - Uma Biografia.
O que chamou a sua atenção?
Olívia Byington - Me fascinou não só o conteúdo musical, mas o estilo musical e de vanguarda no seu jeito de cantar. Ela era chamada de O Samba em Pessoa e cantou Ary Barroso e Custódio Mesquita, entre muitos outros, mas, sem dúvida, teve quase que a missão de fazer a obra de Noel sobreviver. Sua época áurea foi entre os anos 30 e 40. Houve fase em que lançava dois discos por ano.
Por que a pesquisa demorou tanto a virar um disco?
Olívia Byington - Foi complicado. Para começar, nenhuma gravadora se interessou. Cheguei a ser chamada de louca. Ninguém entendia a importância do trabalho. Felizmente, existe a Telebras e o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, um fã de Aracy, que resolveram me dar um patrocínio. Depois disso, consegui gravadora. O disco acabou saindo pela Warner.
A imagem que se tem da Aracy de Almeida é a de uma pessoa mal-humorada, rabugenta...
Olívia Byington - Isso foi uma personagem que ela adotou para sobreviver. Com a entrada em cena da bossa-nova, ela saiu de moda. Optou por ser jurada e acredito que tenha morrido amargurada. Mas ela não era nada disso. Ao contrário do que se insinuava, não era masculinizada. Era uma mulher muito feminina, que tinha biscuits e paninhos delicados espalhados por toda a casa e se vestia com Denner, no final dos anos 60. Agora, era uma espécie de metralhadora giratória, atirava para todos os lados. Era mordaz. Na abertura do show uso uma gravação onde ela conta como conheceu Noel e aproveita para estocar a bossa-nova. O público invariavelmente cai na gargalhada.
No show você se preocupa em encarnar a personagem Aracy de Almeida ou apenas interpreta as músicas cantadas por ela?
Olívia Byington - Não faço o papel da Aracy. No palco quem está cantando é a Olívia. A única caracterização nesse história toda foi a que envolveu a capa do CD.
Pois é, ali seu rosto e o da Aracy se superpõem e se transformam num único rosto. Como e quem descobriu semelhanças físicas entre vocês duas?
Olívia Byington - A idéia inicial era me colocar na capa como uma negra, já que o pessoal no estúdio me chamava de Neguinha Byington, devido ao meu gingado e ao samba no pé. Achei que seria muito preconceituosa essa associação negro-samba. Então o Washington Olivetto sugeriu que eu me caracterizasse de Aracy. Quando foi feito o trabalho de superposição das fotos, viu-se que nossos rostos se encaixavam perfeitamente.
Quando começou a derrocada de Aracy de Almeida?
Olívia Byington - Até os anos 60 ela gravou discos e ainda nos anos 70 voltou a entrar em estúdio. Alguns nomes da MPB tentaram reintroduzi-la no cenário musical, como Caetano Veloso, que gravou para ela A Voz do Morto. O problema é que ela gostava de bem poucos artistas. Acabou desistindo e foi ser jurada de TV.
Depois da trabalheira que foi botar A Dama do Encantado na rua você vai se dedicar agora a um disco com trabalhos inéditos ou tem outro projeto de resgate em vista?
Olívia Byington - O Djavan me aconselhou a fazer um disco inédito e até prometeu ajuda. Por ora, estou voltada para essa turnê, que além de várias cidades brasileiras nos levará também a Portugal, na Expo-98, no segundo semestre. Eu gostaria muito de fazer um trabalho baseado na obra do Radamés Gnatalli, mas suspeito que a tarefa será árdua.


