A cyber rainha da floresta tropical
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sábado, 07 de julho de 2012
Felipe Branco Cruz <br>Agência Estado 
São Paulo - A paraense Gaby Amarantos, de 33 anos, não quer ser mais conhecida como a Beyoncé do Pará. Com o lançamento de seu primeiro disco, ''Treme'' (Som Livre), ela quer ser ''a cyber rainha da floresta tropical''. E não é para menos. Sua música ''Ex My Love'' (Ex Mai Love) estourou nas rádios populares depois de virar tema de abertura da novela das 7 ''Cheias de Charme'' (Globo). Além disso, ela está no elenco da Dança dos Famosos, do ''Domingão do Faustão''.
Mas Gaby penou até chegar ao estrelato. Na adolescência, fez parte de corais de igreja e, entre um ensaio e outro, cuidava da casa e dos irmãos. Depois de cantar nos barzinhos de Belém, ela formou, em 2002, a banda Tecno Show, uma das responsáveis por criar e difundir o tecnobrega. Passados dez anos, hoje está difícil encontrar alguém que ainda não tenha ouvido falar dela. Apesar do sucesso, Gaby continua morando no bairro de Jurunas, na periferia da cidade, e diz que não deixa a fama subir à cabeça.
Como é ser considerada a ''cyber rainha da floresta tropical''?
Foi um título que a imprensa me deu. Acho que o mais importante é trazer um som novo e moderno. Ninguém espera que da floresta amazônica venha um som como esse. Tudo que ouvimos do Pará é sobre Belo Monte e tribo indígena. De repente, aparece uma paraense que apresenta esse novo Brasil.
Na capa de seu disco ''Treme'', você está no meio da floresta com uma serpente e um tigre, cercada por caixas de som gigantes e com lasers saindo de seus peitos. Como surgiu esse cenário?
Queríamos remeter à floresta amazônica, mas com algo mais high-tech, mais moderno, sabe? A explicação é que sou uma guerreira lutando. O laser no peito é para dizer que cheguei e que esta é a minha hora. Abram alas para eu passar.
De onde vem o título do disco?
É por causa da dança que as pessoas fazem nas festas de aparelhagem (bailes). É uma expressão muito utilizada para as pessoas dançarem. Essa dança nasceu no bairro do Jurunas, na periferia de Belém, onde moro até hoje. Você escuta a música, fica enlouquecido e quer dançar, tremer. Se o Michael Jackson lançou o ''Thriller'', eu lancei o ''Treme''. Vamos lançar em breve o DVD ''Live in Jurunas''.
Que dificuldades enfrentou em seus 18 anos de carreira?
A minha maior dificuldade foi a distância do Pará para o Sul e Sudeste do Brasil. A passagem aérea é muito cara. É mais barato ir a Miami. Atualmente, a internet ajudou a diminuir essa distância e fui sendo conhecida aos poucos. As pessoas ficaram curiosas a respeito do meu trabalho. Nunca senti preconceitos nem tive vontade de desistir. Ainda tem muita coisa a ser descoberta por lá. O Pará é um outro país dentro do Brasil. Temos uma cultura diferenciada, com influência da Amazônia Caribenha. Tudo é muito colorido, cheio de aromas, sabores.
Você começou cantando na igreja e já quis ser freira. Por que desistiu?
Fiz o curso vocacional com uma moça que chegou a ser noviça, mas ela também desistiu. Ela nos falou do voto de pobreza e castidade. Falou sobre as orações e responsabilidades. Até aí, achei tudo fácil. Só desisti quando ela disse que era proibido usar maquiagem. Eu disse: ''Opa! Aqui não é o meu lugar!'' (risos).
O voto de castidade não seria um problema para você?
Não! Tenho uma certa vocação para Madre Tereza. Nos shows, uso cinto de castidade. É para mostrar que estamos regidos pelo sexo. O sexo não é o mais importante para mim, apesar de gostar pra caramba. Não deixo isso me dominar. Sou mais forte que o sexo. Se as pessoas tivessem mais esse tipo de valorização, evitaríamos gravidezes indesejadas e casamentos acabando. A nossa sociedade obriga que a mulher tenha um companheiro, que seja feliz e casada, como se a opção de ser solteira não fosse algo tranquilo. Sou solteira, gosto de ser solteira e estou feliz assim.
Ainda canta nos seus shows a versão de ''Single Ladies'', da Beyoncé, ''Hoje Eu Tô Solteira''?
Não canto mais. Essa história começou equivocada. Essa música não é minha e me batizaram de Beyoncé do Pará por causa dela. Mas isso abriu as portas para mim. Agora posso mostrar quem é a Gaby Amarantos. Tenho bagagem e um trabalho musical. Aquela fase da Beyoncé já passou.
Você já tem mais de 300 músicas de sua autoria...
Faço muita música para as festas de aparelhagem. Eu fazia música por encomenda. Grupos de pessoas queriam ter suas próprias músicas. Eu fazia duas, três músicas por dia. E tive essa sacada popular para aprender do que o povo gosta. Mas eram músicas descartáveis, que você tocava uma semana e depois acabava. Era um processo industrial e acelerado.
Como foi sair da informalidade para o profissionalismo?
Eu fazia parte desse mercado informal porque era onde eu tinha demanda. Essa cultura informal é muito do Norte. O movimento cultural chamado brega deve ser respeitado. Ele é moderno e feito com muito carinho. Tudo isso junto me fez lançar o disco ''Treme'', produzido por Carlos Eduardo Miranda.
Como é ter uma música na trilha sonora de uma novela da Globo?
Elevou minha carreira para um patamar mais alto. Esse é o hit que vou cantar daqui a 30 anos. ''Ex My Love'' (Ex Mai Love) é o meu ''É o Amor'', do Zezé Di Camargo e Luciano. Ter a música na novela foi a entrada que eu precisava para chegar ao Brasil todo e ser compreendida.
A personagem da Chayene (Cláudia Abreu) é inspirada em você?
Acho que são as empreguetes por causa da história da vida, de origem humilde e da periferia. Com a Chayene, tem mais a ver com a roupa.
Quando se fala em brega, você acha que a palavra vem carregada de preconceito?
Não mais. As pessoas estão começando a entender. Ainda rola uma confusão porque ouvimos falar que brega é um adjetivo pejorativo, cafona, de mau gosto. Brega pode ser legal. A palavra tem duplo sentido. Para os paraenses, brega é ser feliz, é estilo de vida.
Você está feliz com seu corpo? Já teve vontade de fazer plástica?
Já tive sim. Antes da gravidez. Eu era muito infeliz. Minha autoestima era baixíssima. Depois que virei mãe, meu filho me trouxe energia e aceitação. Hoje sou feliz comigo e com meu corpo. As mulheres ficam felizes quando me veem, porque não sou aquela Barbie ou aquela atriz hiper magra, com um biotipo que você nunca vai ter. As pessoas se identificam com isso. Não quero fazer plástica mais. Eu me cuido, malho, cuido da alimentação para manter o corpo que já tenho. Me acho linda e maravilhosa.
Como concilia tanto trabalho com a vida pessoal e seu filho, de 3 anos?
Meu contato com Davi é diário, tenho Skype, telefone. Tudo isso que estou fazendo é para dar um futuro melhor para ele. Minha família é de descendentes de escravos e índios. Sou a chance de poder dar um futuro melhor para eles. Por isso, não tem tristeza. Estou longe do meu filho para dar tudo de melhor para ele.


