A cultura nas mãos de uma professora
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domingo, 29 de dezembro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba Ela se considera um ''rato de biblioteca'', uma leitora voraz capaz de devorar de Erico Verissimo a Pablo Neruda numa única noite. Vai ao cinema com a filha, porque o marido não gosta muito e lembra com saudosismo os espetáculos do já extinto Teatro de Bolso, na Praça Rui Barbosa, com os atores paranaenses Ary Fontoura e Odelair Rodrigues. O perfil relâmpago é da nova secretária estadual da Cultura, Vera Mussi (PMDB), indicada no início da semana passada para assumir a pasta pelo governador eleito Roberto Requião, do mesmo partido. Vera já tinha sido citada anteriormente, ao lado de mais quatro nomes, como possível candidata ao cargo. Aceitou o ''desafio'' depois da recusa da vereadora Elza Correia (PMDB), de Londrina.
Formada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), a nova secretária atuou como diretora da pasta no início da década de 90, no então governo Requião (1991-1994). Admite ser uma militante do partido, mas garante que a ''militância acabou depois das eleições''. Às vésperas de assumir o cargo, a professora de 61 anos tenta se familiarizar com as diversas vertentes da secretaria. Para isso, já participou de encontro com a atual secretária Monica Rischbieter e com o secretário de Assuntos Estratégicos, Alex Beltrão.
Antes mesmo de ser indicada para o cargo, Vera integrou a equipe que definiu a política cultural a ser seguida caso Requião fosse eleito. Agora o novo governo se apressa para traçar um diagnóstico de uma das secretarias que ostenta o mais baixo orçamento do Estado e problemas inversamente proporcionais. Em entrevista exclusiva à Folha2, a nova secretária traça o perfil da cultura paranaense e adianta algumas medidas a serem tomadas. Confira os principais trechos da entrevista.
A senhora já teve participação na Secretaria Estadual da Cultura quando o Requião governou o Estado, no início da década de 90. O que mudou desde então? Como a senhora faz um diagnóstico das políticas culturais do Estado atualmente?
Eu acho que no governo Requião havia uma preocupação maior com o interior do Estado e que hoje se voltou muito para a capital. Me parece que essa é um pouco a marca do atual governo: ser muito voltado para Curitiba. Sabemos que na Secretaria da Cultura não é tão simples fazer alguma coisa voltada para o Estado todo porque é uma secretaria que não tem braços, não tem núcleo regional e não tem apoio fora da cidade. No governo Requião a gente supria isso com as viagens ao interior do Estado e essa era a principal diferença.
E como a senhora pretende voltar a essa premissa e descentralizar a administração cultural?
É um desafio. A Secretaria da Cultura é um enorme desafio. Nós pretendemos voltar a essa postura de ampliar para o Estado a administração e de ter todas as cidades como parceiras. Mas acho que nesse governo temos que dar um passo a frente e não só se voltar para o Estado, como também para fora, para América Latina toda. Temos projetos nesse sentido, mas ainda é muito cedo para adiantar.
O governo Requião, principalmente a senhora, na Secretaria da Cultura, vai herdar alguns projetos bem polêmicos. Como exemplo podemos citar as salas do Circuito Velho Cinema Novo e o NovoMuseu. Como a senhora pretende transformar esses prédios em projetos culturais?
O NovoMuseu é um exemplo claro disso. É um museu sem acervo. Se investiu muito no edifício e ao que me consta, absolutamente nada em acervo. E o que caracteriza o museu é o seu acervo. Chamar o edifício de NovoMuseu é um pouco exagerado porque não tem acervo próprio. É uma edificação arquitetônica muito bonita, muito elogiada, mas o conteúdo desse museu é inexiste e vai ser uma terefa nossa buscar formas de aproveitar isso. Lógico, vamos utilizar dinheiro público e vamos com uma certa calma para ver o que será possível fazer para transformar esse espaço numa efetiva ação cultural.
A terceirização da administração está entre os planos para que isso aconteça?
Não. O governador não é partidário de terceirização. Isso não vai acontecer. Vamos ter que usar de criatividade, mesmo porque os recursos na área da cultura e não só na área da cultura são difíceis. Mas acho que com criatividade vamos poder fazer uma belíssima ação cultural naquele espaço.
E o circuito Velho Cinema Novo. É também um projeto muito bonito, mas que não condiz com a teoria. São salas de cinema que foram entregues sem projetores, fundamentais para o funcionamento de um cinema...
Eu concordo com você. Acho que é um projeto muito bonito e interessante. A volta do cinema faz parte da vida comunitária, hoje muito prejudicada por causa da televisão. Mas de novo estamos na mesma situação. O que fazer para que esse projeto aconteça? Porque isso também tem custos. Esses projetores custam muito caro e o retorno disso numa cidade pequena é bastante difícil. Eu vejo aí um outro problema que vamos ter que encarar. Uma das soluções nesse caso seria uma conversa com as prefeituras para ver a possibilidade de parcerias.
Outra proposta considerada problemática é a Lei Estadual de Incentivo à Cultura. A lei demorou muito para sair do papel e quando saiu, já no final desse ano, nasceu com problemas. Como isso será solucionado?
A própria secretária atual da cultura (Monica Rischbieter) admite que a lei tem problemas. Nós já temos uma pessoa estudando os termos da lei e depois de um parecer técnico vamos propor uma revisão.
A senhora citaria outros projetos complicados desssa gestão? O que a nova secretária pretende dar continuidade e o que pretende excluir?
Eu só fui muito recentemente indicada para o cargo. Passei uma tarde conversando com a Mônica Rischbieter para me colocar ao par da situação. Então estamos tentando destrinchar os projetos primeiro. Fui indicada na segunda-feira, que era feriado. Na segunda e na terça também. Apenas na quarta-feria pude começar a buscar essa interação. Ainda não temos uma visão geral da programação.
A senhora já tomou conhecimento do orçamento previsto para a Secretaria da Cultura para o próxima gestão?
Já. A própria secretária da cultura me apresentou e eu tenho uma pessoa que é da equipe de transição que já está analisando para mim. Mas o montante previsto para esse ano é bastante baixo, de R$ 35 milhões. A Monica me adiantou que nem esses R$ 35 milhões ela recebeu. Então, por mais criativas que as pessoas sejam é um pouco complicado trabalhar assim. A nossa obrigação é tentar trabalhar com o que a gente tem e buscar outros recursos. Eu acho que essa vai ser uma das nossas tarefas: buscar recursos que não aqueles do tesouro.
Nós já podemos falar em primeiro passo nas primeiras semanas da sua gestão?
O primeiro passo será a montagem de equipe. E para isso, a orientação do governador eleito é que o governo é plural. Ele me disse: ''você não vai perguntar para ninguém se votou em mim, mas se a pessoa é competente, se é capaz, se é séria e se tem uma proposta''. Por enquanto não temos nenhum nome. Ainda é cedo.


