Elisa Marilia Carneiro
De Curitiba
A cultura é a área que mais abre frentes de trabalhos. É ainda a melhor forma de promover a educação. Este foi o tom da entrevista dada pela atriz Fernanda Montenegro, ontem, em Curitiba. Ela veio, acompanhada do marido, Fernando Torres, lançar o projeto ‘‘Fernanda EnCena’’, uma retrospectiva dos 50 anos de carreira e 70 anos de vida. A mostra é patrocinada pela empresa Tele Centro Sul/Telepar e vai percorrer oito cidades brasileiras. De Curitiba, vai para Campo Grande, em Mato Grosso do Sul.
Fernanda lembrou o início da carreira como atriz da Rádio Ministério; do grupo ‘‘Teatro dos Sete’’; dos teleteatros no Grande Teatro Tupi, das montagens do Teatro Brasileiro de Comédia, das novelas e do talk show do Canal Brasil, que está sendo veiculado também pela TV Educativa.
‘‘Abrimos gavetas, sacos e malas para encontrar o material para a exposição. Escolhemos os trabalhos que mostram que a cultura é feita artesanalmente, em cada cidade, em cada buraco desse País’’, afirmou. ‘‘Queríamos alertar que a cultura, nesse País, dito capitalista, ainda é olhada como lirismo e fantasia.’’
O espaço cultural deve ser visto como fonte de trabalho para marceneiros, pintores, costureiras, sapateiros, até a fábrica de pregos. ‘‘O Brasil ainda não acordou para esses fatos. O investimento da cultura é o que dá maior retorno de imagem para as empresas e isso tudo ainda fica muito restrito aos governos’’, adverte.
No que se refere à educação através da cultura, Fernanda frisou que o sistema atual, onde a cultura é colocada como alguma coisa extra, que fica em segundo plano, ‘‘ensina, mas não educa. É quase uma esquizofrenia’’, compara. ‘‘As artes, de maneira geral, são o caminho mais indicado para se ter uma visão de cidadania e não apenas de utilidade.’’
O País está passando por grandes transformações, analisou. ‘‘Hoje em dia, tudo é inútil e ao mesmo tempo muito importante. Se uma estrela qualquer usa uma blusinha, chegam milhões de telefonemas querendo saber onde encontrar a tal roupa. Isso é fruto dos meios de comunicação de massa. Temos de administrar isso melhor.’’
Fernanda reconhece que está assustada com a atual situação brasileira. ‘‘Não sou adepta da sinistrose, mas percebo que estamos atravessando um período de convulsão social. Crimes nefandos praticados por homens públicos, tráfico de drogas... Me pergunto se essa CPI (do narcotráfico) vai dar caldo, ou se vão parar por aí, justamente por estar indo longe demais. Estamos à beira de um descontrole social.’’

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