Só vai faltar o tradicional chá das cinco. O resto – das sessões de homenagens aos rituais de posse dos imortais – repetirá o que manda a pompa da centenária Academia Brasileira de Letras e de outras entidades do gênero.
É o que informa Paulo Sérgio Rodrigues Carvalho a respeito da recém-criada Academia de Cultura do Paraná, da qual foi eleito presidente no último sábado em Londrina. O objetivo da entidade é valorizar a cultura do Estado. ‘‘O Paraná não tem uma identidade cultural como tem a Bahia, o Rio Grande do Sul ou as regiões Norte e Nordeste’’ – afirma. ‘‘Queremos ressaltar as manifestações culturais nativistas cadastrando e divulgando a música, o teatro, a literatura, a pintura, a escutura, a arquitetura, o folclore, o artesanato, o cinema e os patrimônios ecológicos’’.
Para tanto, pensam em realizar concursos para eleger a música mais representativa do Paraná e a comida mais típica do Estado. Sobre a culinária, ele pergunta se o prato mais característico da região seria o barreado (de Morretes), o porco no rolete (Toledo) ou o carneiro no buraco (Campo Mourão). ‘‘Qual deles tem mais a cara dos paranaenses? Precisamos saber, afinal os gaúchos sabem até qual é a flor que melhor representa o Rio Grande do Sul’’ – compara.
Na solenidade de fundação, realizada na Biblioteca Pública, não faltaram discursos e fardões para a posse dos 11 primeiros membros da entidade. A cineasta Tizuka Yamasaki esteve presente para receber a comenda Umuarama pelos serviços prestados a Londrina e ao Estado pela filmagem na região do longa-metragem ‘‘Gaigin 2’’.
‘‘Ela vai divulgar o Paraná para o mundo’’ – diz o presidente, sem conter o entusiasmo. Além de Carvalho, tomaram posse na Academia João Antonio Menegasse (vice-presidente), José de Arimathéia Cordeiro Custódio (secretário-geral), João Darcy Ruggery, Jorge Pedro Barbosa Lemes, José Eduardo de Siqueira, Marta Bellini, Odilon José Ratzke, Sérgio Russo, Sílvia Elisabeth Pedrosa Boscardin e Valter Martins de Toledo.
‘‘Temos aí poetas, artesãos, médicos que são artistas plásticos e juízes de Direito que são escritores. Todos com currículos respeitáveis’’ – salienta Carvalho. Os nomes foram escolhidos a partir de círculos de amigos e consultas a universidades e biblioteca públicas. Do grupo, 5 são de Londrina, 3 de Curitiba, 2 de Maringá e 1 de Apucarana.
Antes que alguém questione a legitimidade de sua constituição, Carvalho explica que todas as Academias são gestadas desta forma. ‘‘A própria Academia Brasileira de Letras surgiu através da iniciativa de um grupo de poetas, escritores e cronistas. Os 14 membros originais foram eleitos pelos pares’’ – argumenta. A exemplo das demais Academias espalhadas pelo mundo, esta também terá 40 cadeiras.
Para completá-las, os candidatos serão eleitos a partir do próximo ano, com a posse de 6 novos membros a cada temporada. Depois, seguirá a tradição com os rituais de substituição a partir da morte de um ou outro membro. Para se inscrever à eventual vaga, basta que o sujeito tenha uma atuação reconhecida no meio cultural.
Ainda segundo seu presidente, a decisão de criar a entidade em Londrina foi uma sugestão da Academia de Cultura de Curitiba, esta fundada em 1972 pelo ex-prefeito da Capital e ex-ministro da Agricultura Ivo Arzua. O próprio presidente da secção curitibana, Odilon José Ratzke, foi um dos contemplados com uma nova cadeira na versão estadual da Academia.
Para manter a instituição, que está provisoriamente instalada numa sala da Biblioteca Pública, os membros pretendem buscar recursos na iniciativa privada. ‘‘Vamos correr atrás de patrocinadores para conseguir computadores. Depois, pensaremos numa sede própria’’ – adianta. A primeira boa notícia é que o Ministério da Cultura doou 2 mil livros para a entidade. O anúncio foi feito por Paulo Oliver, assessor da pasta que esteve presente em Londrina e também recebeu homenagens e honrarias no último sábado.
Curiosamente, a despeito de seguir vetustos cerimoniais, Carvalho garante que a proposta da Academia de Cultura do Paraná é afastar qualquer nuvem parnasiana que venha a pairar sobre seus membros. ‘‘Queremos desmistificar a idéia que as pessoas têm das Academias. Pretendemos abrir as portas à população’’ – diz. Aos interessados, a diretoria da entidade irá se reunir todas as quintas e sextas-feiras a partir de 14 horas na Biblioteca Pública.
Por enquanto, sem bolo de aipim e quadradinhos de banana, o tradicional cardápio do chá das cinco da ABL.

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