A cultura de fardão
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de abril de 2002
Nelson Sato Reportagem Local 
Só vai faltar o tradicional chá das cinco. O resto das sessões de homenagens aos rituais de posse dos imortais repetirá o que manda a pompa da centenária Academia Brasileira de Letras e de outras entidades do gênero.
É o que informa Paulo Sérgio Rodrigues Carvalho a respeito da recém-criada Academia de Cultura do Paraná, da qual foi eleito presidente no último sábado em Londrina. O objetivo da entidade é valorizar a cultura do Estado. O Paraná não tem uma identidade cultural como tem a Bahia, o Rio Grande do Sul ou as regiões Norte e Nordeste afirma. Queremos ressaltar as manifestações culturais nativistas cadastrando e divulgando a música, o teatro, a literatura, a pintura, a escutura, a arquitetura, o folclore, o artesanato, o cinema e os patrimônios ecológicos.
Para tanto, pensam em realizar concursos para eleger a música mais representativa do Paraná e a comida mais típica do Estado. Sobre a culinária, ele pergunta se o prato mais característico da região seria o barreado (de Morretes), o porco no rolete (Toledo) ou o carneiro no buraco (Campo Mourão). Qual deles tem mais a cara dos paranaenses? Precisamos saber, afinal os gaúchos sabem até qual é a flor que melhor representa o Rio Grande do Sul compara.
Na solenidade de fundação, realizada na Biblioteca Pública, não faltaram discursos e fardões para a posse dos 11 primeiros membros da entidade. A cineasta Tizuka Yamasaki esteve presente para receber a comenda Umuarama pelos serviços prestados a Londrina e ao Estado pela filmagem na região do longa-metragem Gaigin 2.
Ela vai divulgar o Paraná para o mundo diz o presidente, sem conter o entusiasmo. Além de Carvalho, tomaram posse na Academia João Antonio Menegasse (vice-presidente), José de Arimathéia Cordeiro Custódio (secretário-geral), João Darcy Ruggery, Jorge Pedro Barbosa Lemes, José Eduardo de Siqueira, Marta Bellini, Odilon José Ratzke, Sérgio Russo, Sílvia Elisabeth Pedrosa Boscardin e Valter Martins de Toledo.
Temos aí poetas, artesãos, médicos que são artistas plásticos e juízes de Direito que são escritores. Todos com currículos respeitáveis salienta Carvalho. Os nomes foram escolhidos a partir de círculos de amigos e consultas a universidades e biblioteca públicas. Do grupo, 5 são de Londrina, 3 de Curitiba, 2 de Maringá e 1 de Apucarana.
Antes que alguém questione a legitimidade de sua constituição, Carvalho explica que todas as Academias são gestadas desta forma. A própria Academia Brasileira de Letras surgiu através da iniciativa de um grupo de poetas, escritores e cronistas. Os 14 membros originais foram eleitos pelos pares argumenta. A exemplo das demais Academias espalhadas pelo mundo, esta também terá 40 cadeiras.
Para completá-las, os candidatos serão eleitos a partir do próximo ano, com a posse de 6 novos membros a cada temporada. Depois, seguirá a tradição com os rituais de substituição a partir da morte de um ou outro membro. Para se inscrever à eventual vaga, basta que o sujeito tenha uma atuação reconhecida no meio cultural.
Ainda segundo seu presidente, a decisão de criar a entidade em Londrina foi uma sugestão da Academia de Cultura de Curitiba, esta fundada em 1972 pelo ex-prefeito da Capital e ex-ministro da Agricultura Ivo Arzua. O próprio presidente da secção curitibana, Odilon José Ratzke, foi um dos contemplados com uma nova cadeira na versão estadual da Academia.
Para manter a instituição, que está provisoriamente instalada numa sala da Biblioteca Pública, os membros pretendem buscar recursos na iniciativa privada. Vamos correr atrás de patrocinadores para conseguir computadores. Depois, pensaremos numa sede própria adianta. A primeira boa notícia é que o Ministério da Cultura doou 2 mil livros para a entidade. O anúncio foi feito por Paulo Oliver, assessor da pasta que esteve presente em Londrina e também recebeu homenagens e honrarias no último sábado.
Curiosamente, a despeito de seguir vetustos cerimoniais, Carvalho garante que a proposta da Academia de Cultura do Paraná é afastar qualquer nuvem parnasiana que venha a pairar sobre seus membros. Queremos desmistificar a idéia que as pessoas têm das Academias. Pretendemos abrir as portas à população diz. Aos interessados, a diretoria da entidade irá se reunir todas as quintas e sextas-feiras a partir de 14 horas na Biblioteca Pública.
Por enquanto, sem bolo de aipim e quadradinhos de banana, o tradicional cardápio do chá das cinco da ABL.


