A Cultura como eixo político
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quinta-feira, 07 de novembro de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local 
A proposta para o setor da cultura do governo Lula tem como norte o retorno da intervenção direta do Estado na cadeia de produção cultural. Essa foi a resposta imediata à gestão do Ministro da Cultura Francisco Weffort, marcada pela atuação canhestra e pela política privatizante do setor. Em outros pontos, o programa petista pretende dar um novo direcionamento às leis de incentivo e implantar o Sistema Nacional de Política Cultural (SNPC).
A Folha2 conversou com o prefeito Nedson Micheleti (PT) sobre as diretrizes do programa de cultura do presidente Lula e da atual gestão municipal, que desde a campanha propôs inserir a cultura nas discussões de política pública. Na entrevista exclusiva, Nedson Micheleti discute os pontos vulneráveis da área cultural em Londrina, tanto os recebidos de herança das gestões anteriores como a falta de equipamentos públicos e sobre a Rede da Cidadania, circuito de cultura e lazer, envolvendo todas as secretarias numa perspectiva de integração sócio-cultural.
Segundo Nedson, o governo tem de participar dessa diretriz de valorização da cultura e não somente o setor privado contribuiir. Ele também reitera a necessidade do debate público no setor. Nedson considera que a Secretaria Municipal de Cultura tem peso e ''está dando a linha de ação da atual administração''.
Para o ano de 2003, segundo apurou a Folha2, o orçamento da Cultura terá uma considerável elevação. De R$ 2,9 milhões previsto para esse ano, o proposto para o próximo ano é R$ 4,7 milhões. Sobre as especulações sobre um possível nome do Partido dos Trabalhadores para ocupar a pasta na esfera estadual, Nedson Micheleti foi reticente afirmando que não há nomes do PT. Apenas na equipe de transição participa o deputado Ângelo Vanhoni.
Dentre as novidades, Nedson Micheleti anuncia que irá construir o Teatro Municipal ainda em sua gestão, buscando recursos federais, e a construção de quatro centros culturais em pontos estratégicos da cidade. Mas no que se refere aos problemas da falta generalizada de equipamentos públicos de qualidade, Nedson não apresentou solução, considerou apenas que os recursos locais têm limitações. A seguir, os principais trechos da entrevista com o prefeito de Londrina.
Que tipo de 'parceria' poderá ser estabelecida com o governo federal, como consta no programa petista?
Com o governo federal podemos articular um circuito. A produção cultural de Londrina para outras regiões, crescendo a possibilidade de renda de quem produz a cultura local. O governo do presidente Lula tem a visão da cultura como forma integradora, de inclusão social e cidadania. Durante a campanha, a equipe do presidente Lula esteve em Londrina levando informações de como trabalhamos. O Hamilton Pereira (coordenador do programa de cultura de Lula), da equipe de transição, possui bom conhecimento de Londrina. É até bom que nossa experiência passe por um crivo. Há uma grande expectativa sobre esse trabalho.
Da experiência de horizontalização da cultura em Londrina, o que pode ser levado para âmbito nacional?
A experiência de Londrina tem muito a ver com o projeto de cultura nacional. Nós a executamos num momento difícil, política e economicamente. Podemos destacar a formação do Conselho de Cultura. A Rede da Cidadania tem um papel de política integrador tendo a cultura como linha mestra.
Quais são os avanços que o senhor considera que aconteceram no segmento da cultura em Londrina?
A integração das áreas de governo com uma política de articulação das várias equipes, deixando o formato clássico onde cada secretaria funcionava como uma 'prefeiturinha'. É importante integrar as ações que, muitas vezes, esbarram nas concepções da máquina da Prefeitura, numa visão dicotômica. A Conferência Municipal de Cultura e formação do Conselho Municipal de Cultura são pontos importantes. São conquistas do setor cultural.
Em relação ao orçamento da Secretaria de Cultura, é possível atingir suas metas na área cultural com o atual orçamento da pasta?
A questão supera o valor do orçamento de uma secretaria. Por exemplo, a secretaria de Educação implantou o projeto de arte-educação no contra-turno. É a cultura que dá o tom e os recursos saem da Educação. Numa visão integrada das ações, uma secretaria não tem peso maior porque possui mais orçamento. Na Secretaria da Ação Social temos o projeto Viva a Vida, que possui núcleos de integração com a comunidade. Queremos superar na ação multidisciplinar.
Um dos problemas crônicos que parecem indissolúveis na cidade é a falta de equipamentos públicos de qualidade. Tudo tem um caráter de improvisação e os espaços sempre são mal adaptados. Não há teatros adequados, salas de exibição de cinema (cinemateca), não há espaços para exposição de artes plásticas, salas para cursos, salas para reuniões, enfim...Sua administração vai repassar essa herança?
Espero que não. Mas não é nada simples. Os recursos locais têm um limite de investimento.
O Teatro Municipal realmente vai sair do papel?
Sim. A cidade carece de um grande teatro municipal. Há um projeto de teatro e vou à caça de recursos federais. O teatro precisa ser compatível com a cidade, e que possa receber um público superior às outras salas da cidade. É preciso instrumentalização para espetáculos de grande porte.
A Rede da Cidadania possui alguns pontos vulneráveis (ocupa locais alternativos pela falta de espaços culturais, escassez de técnicos e funcionários na secretaria para dar conta da demanda) identificados no relatório que a Unesco apresentou quando visitou a cidade. De que forma atacar essas vulnerabilidades para que numa outra administração a proposta possa ser levada adiante?
No que se refere a funcionários, estamos procurando uma forma para que não façamos concursos públicos. Por isso, trabalhamos com ONGs, fazemos parcerias, terceirizações. Uma dessas parcerias é com o pessoal da capoeira, no projeto Berimbau da Cidadania. Com o tempo, com o processo já instalado, ficam os coordenadores. O mesmo acontece com o Hip Hop. Com relação à demanda estrutural, estamos resolvendo pontualmente, com o Centro do Conjunto Maria Cecília, na zona sul há um ginásio de esportes em fase de licitação e o CAIC. Por enquanto, a Rede da Cidadania funciona em salões de igreja e centros comunitários. Essa é uma reivindicação da Secretaria de Cultura. Precisamos viabilizar recursos para criar pontos de Rede.
O projeto de quatro centros culturais na cidade construídos até o final de sua administração realmente existe?
Sim, existe. Sabemos que esses espaços são necessários para a concepção da Rede da Cidadania e para a articulação das políticas públicas integradoras.
O senhor é amigo do presidente Lula? Isso ajuda?
Conheço o presidente Lula desde a criação do Partido dos Trabalhadores. Tenho facilidade de falar com ele, com o José Dirceu (presidente do Partido dos Trabalhadores) e Gilberto de Carvalho (assessor do presidente Lula). Espero que isso ajude a cidade ter o Teatro Municipal. Somando o valor da área de construção e da obra, dificilmente se faz isso por menos de R$ 12 milhões. O município não teria condições de bancar isso, e sim, o governo federal.


