Uma série de incêndios deixa os habitantes de uma cidade em polvorosa, provocando muita confusão. Exceto Cândido Biedermann, empresário de sucesso, fabricante de uma falsa loção capilar. Pequeno burguês alienado, cheio de boas intenções e culpas, ele resolve abrigar um desconhecido em sua casa. Mal sabe o que lhe é reservado.
A história contada pelo autor suíço Max Frish (1911-1991) pode ser conferida hoje e amanhã no Festival Internacional de Londrina (Filo), na montagem da Companhia São Jorge de Variedades, de São Paulo. O espetáculo ''Biedermann e os Incendiários'' será apresentado às 22 horas, no Núcleo I.
Escrito na década de 50 (inicialmente como peça radiofônica para poucos personagens, mais tarde adaptada), o texto é uma fábula da alienação que pode levar a grandes tragédias. Nas palavras da diretora do espetáculo, Georgette Fadel, ''uma fábula sobre máscaras que as pessoas criam para outros e para si mesmas''. O personagem carrega culpas e sua falta de coragem e atitude diante das coisas é decorrente disso.
Depois de abrigar o desconhecido em sua casa, Biedermann descobre que seu ''hóspede'' tem um amigo e vários galões de gasolina. Um coro de bombeiros uma referência aos antigos coros gregos bem que tenta adverti-lo do perigo. Movido pelo sentimento de culpa e passividade, ele não tem coragem de expulsar os incendiários.
Georgette Fadel comenta que Biedermann (que significa ''homem bom'') vive cercado de mentiras. ''Ele é bom marido, bom empresário, tem bons costumes e boa educação. Mas nada disso garante que ele é um homem bom'', diz. ''Ele busca sempre subterfúgios para se achar bom, põe panos quentes na situação'', completa o ator Alexandre Krug, também responsável pela tradução.
O texto segue a linha brechtiana e carrega um humor irônico e sutil, que exige um certo raciocínio do público, como antecipa a direção.
Com nove atores em cena, ''Biedermann...'' tem trilha sonora criada especialmente por Ivini Ferraz e é executada ao vivo pelo elenco, que também participa das coreografias de Roberta Estrela D'Alva.
''Biedermann...'' é a quarta montagem da Cia. São Jorge e teve sua estréia em setembro de 2001. A companhia, criada há cinco anos dentro da Universidade de São Paulo, tem três espetáculos montados, dois deles em repertório (''Biedermann...'' e ''Um Credor da Fazenda Nacional'').
A crítica social sempre pontuou os trabalhos do grupo, a partir da temática dos espetáculos. Em seu novo trabalho, cuja estréia deve acontecer ainda este ano, a São Jorge inaugura uma nova fase, em que a abordagem social será vivenciada no processo de montagem. ''Bastiana'' será concebida dentro de um albergue de trabalhadores de rua, sob direção de Luiz Mármora.
A companhia paulistana está entre os grupos que terão projetos de pesquisa beneficiados pela Lei de Fomento ao Teatro, de São Paulo, e receberá o incentivo de R$ 250 mil para desenvolver seu trabalho.
FICHA TÉCNICA:
''Biedermann e os Incendiários'' Espetáculo da Cia. São Jorge de Variedades, de São Paulo. Texto: Max Frish. Tradução: Alexandre Krug. Direção: Georgette Fadel. Com Alexandre Faria, Alexandre Krug, Ana Cristina Petta, Carlota Joaquina, Luís Mármora, Mariana Senne, Patrícia Gifford, Paula Klein e Rogério Tariffa. Direção musical: Ivini Ferraz. Coreografia: Roberta Estrela D'Alva . Preparação corporal: Erika Moura e Sabrina Cunha. Figurino: Claudia Schapira. Cenário e adereços: Júlio Dojcsar. Iluminação: Miló Martins. Duração: 1h30.

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