A crítica sob o enfoque do riso
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de maio de 2002
Francelino França<br>Reportagem Local 
Quem mora sob telhado de vidro não dorme sossegado. Atores seres de sensibilidade à flor da pele sonham com o estrelato pelo telhado de vidro até que o fatídico dia em que um míssel os atingem. São os críticos teatrais os atiradores de elite da classe teatral. Muitos se julgam mestres dos mestres. Dentre esses atiradores do Olimpo, a veterana Bárbara Heliodora reina absoluta como a mais temida e ferina crítica teatral brasileira. Já arrumou quiprocós com baluartes do teatro e quando a megera engomada chega para assistir a uma peça, ouve-se a sucessão de sussurros: a Bárbara está aí....
Como ser mitológico, Bárbara Heliodora se tornou personagem do hilariante espetáculo Bárbara Não lhe Adora, da debochada trupe carioca Janeiro Produções. Na peça, um grupo é metralhado pela ácida crítica Bárbara Heleonora, depois de miscigenar Shakespeare com o axé. Sequestram a afamada crítica e numa sequência de gags, torturam a pobre, enquanto divertem a platéia.
Bárbara Não lhe Adora aborda aspectos importantes por baixo do humor contagiante. Primeiro, o alcance, o poder dos meios de comunicação e a função social da crítico teatral. Outro aspecto revelado na peça é a forma com que se trabalha com o elemento ilusão, tanto no palco, como nos bastidores. Se não há uma formação no mínimo razoável aos atores, isso fica transparente no palco. E se não há uma busca pelo autoconhecimento, fica-se há um palmo acima do chão, exercitando o polimento do ego, sem compreensão do ofício.
Henrique Tavares soube unir com precisão um texto coerente que ultrapassa o mero entretenimento. Na direção, Tavares centrou foco nos personagens arquetípicos dos bastidores do teatro e obteve imediata comunicabilidade com a platéia. O elenco afiado não desperdiçou oportunidades, principalmente o ator Charles Paraventi, de inegável talento. O cenário franciscano cedeu lugar ao expressionismo das reações diante da situação limite. Ainda se revela no palco nossa capacidade de rirmos dos nossos próprios infortúnios.
Mesmo correndo o risco de muitas gags funcionarem apenas para os iniciados na arte teatral, Bárbara Não lhe Adora apresenta os meandros de dois ofícios que se complementam, mas via de regra, não comungam do mesmo credo. O dramaturgo e crítico Bernard Shaw, da mesma linhagem de Bárbara Heliodora, repetia sempre: a crítica sempre foi e sempre será a pior possível. Que Deus o guarde em bom lugar.


