A crítica na berlinda
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de dezembro de 2001
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
Criticar pode ser uma atividade de risco. Alguns criticados costumam devolver ''fisicamente'' os sopapos verbais dos quais foram vítimas na página do jornal. A própria Folha de Londrina registra episódios grotescos envolvendo crítico e criticados, esses hostilizando aquele em tom de ameaça.
No geral, as divergências não chegam às vias de fato, embora raramente se aproximem do debate civilizado. Numa de suas passagens recentes por Londrina, o escritor Carlos Heitor Cony não quis polemizar sobre o assunto preferindo abordá-lo por outro ângulo. Admitiu que toda crítica embute um valor positivo, ainda que seja uma crítica ressentida.
''De dez restrições que ela traga, pelo menos cinco serão verdadeiras'' salientou em entrevista à Folha2. Para o filósofo francês Jaques Leenhardt, ''ninguém entenderá bem o que é criticar, na chave de nossos dias, se continuar separando a crítica e a criação artística, se entender a primeira como mera parasita da segunda, e não perceber que, por um lado, criar artisticamente exige critérios e escolhas, e que, por outro, criticar não é apenas decifrar uma criação inconsciente, a do artista''.
Segundo ele, criticar não significa aplicar mecanicamente um critério já pronto a uma obra ou ação. Mas ''entrar em crise. É propor critérios que antes não existiam. É inventar o novo'' diz. O depoimento consta do livro ''Rumos da Crítica'', recém-lançado pela editora Senac em parceria com o Itaú Cultural. Além de Leenhardt, o livro inclui textos-conferências de Benedito Nunes, Marcelo Coelho, Gerd Bornheim e Eugênio Bucci.
Simultaneamente, a co-edição propiciou o lançamento do volume ''Outras Leituras'' trazendo reflexões teóricas sobre literatura (por Flávio Aguiar), televisão (Maria Aparecida Bacega), jornalismo cultural (Dulcilia Buitoni) e linguagens interagentes (Irene Machado). Já a revista ''Rodapé'', outro lançamento da temporada, tenta retomar o exercício da crítica a partir da herança deixada pelos militantes das letras da primeira metade do século XX, quando suas palavras podiam determinar o sucesso de um livro.
O conselho editorial é formada por Davi Arrigucci Jr., Roberto Schwarz, Júlio CastaÀon Guimarães e Valentim Facioli. O número de estréia reúne entrevistas com Modesto Carone e Marcelo Coelho; ensaios de Carlos Felipe Moisés (''Geração, Gerações Breve Introdução à Poesia Brasileira Contemporânea'') e Alfredo Bosi (''Os Estudos Literários na Era dos Extremos''); além de pilhas de resenhas de livros (entre os quais títulos de Ferreira Gullar, Roberto Piva, Adélia Prado, Sebastião Nunes e Rubens Rodrigues Torres Filho).
No texto de apresentação, os editores salientam a necessidade de avaliar a produção literária contemporânea, que segundo eles é tão maltrada pela superficialidade do jornalismo diário quanto marginalizada pelo ensaísmo acadêmico.
Serviço:
Revista ''Rodapé''. Nankin Editorial. Tel. (11) 3106-7567. E-mail: [email protected]
''Rumos da Crítica'' e ''Outras Leituras''. Editora Senac. Tel. (11) 3884-8122. E-mail: [email protected]


