A crítica de arte na berlinda
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de março de 2002
Rubens Pileggi<br>Especial para a Folha 2 
Semana passada, neste espaço, o assunto abordado acabou fazendo uma espécie de contraposição, ou justaposição a uma discussão ocorrida sincronicamente em outros jornais e que acabaram circulando em torno da compreensão e legitimidade da arte contemporânea e sua capacidade de encontrar recepção às questões por ela levantadas. Em um dos artigos, o jornalista Carlos Heitor Cony diz que não entende as instalações de arte e nem finge entendê-las, para, dando continuidade a seu raciocínio, citar exemplos que tornam esse tipo de manifestação artística engraçada e ridícula sob sua ótica, comentando a questão em tom caricato. Pois bem.
Em outros dois textos em O Globo, A Arte na Berlinda e Mostra Panorama: um insulto ou um viva à arte contemporânea, os poetas Ferreira Gullar e Afonso Romano SantAnna são citados, dizendo coisas como: São improvisos destituídos de qualquer elaboração efetiva e As bienais e documentas são de uma pungente indigência intelectual. Sendo que SantAnna propõe até um debate sobre a arte para especialistas fora das artes plásticas, como psicanalistas, publicitários e professores de literatura.
Voltando um pouco atrás, dia 2 de março, exatamente, o espaço Agora promoveu um debate no MAM do Rio de Janeiro em consequência de um artigo que saiu no Jornal do Brasil, em que um de seus repórteres caçoava da mostra Panorama de maneira bastante desinformada quanto ao que ali se apresentava, buscando justificativas de um típico telespectador fã de Casa dos Artistas, que lhe desse razão para tal procedimento.
O quadro é esse: a compreensão da arte contemporânea. No Alfabeto Visual da semana passada foram dados exemplos de estratégias diversas de realização de trabalhos artísticos, na tentativa de dinamizar um debate além do gosto pessoal que acaba sendo a desculpa para encerrar qualquer discussão estética. O texto finalizava dizendo que os tais trabalhos poderiam ser de difícil compreensão para quem vê a arte ainda como ciência do belo, mas, poderia ser que, para aqueles destituídos dessa visão a priori do que seja arte ou não, os trabalhos exemplificados fizessem muito mais sentido. Ou seja, onde arte e vida pudessem se tornar permeáveis uma na outra.
O fato é que vivemos uma tal multiplicidade de ações artísticas e uma diversificação de propostas em arte, que tentar colocá-las sob um mesmo critério é algo que foge e trai, inclusive, a nossa própria formação de miscigenação étnica e variação cultural. Não é que o parâmetro seja não ter parâmetro. Mas sua riqueza é justamente o alargamento e a variação das possibilidades de se pensar a cultura, a arte, o cotidiano. É essa a nossa contribuição mais pungente diante de um mundo cada vez menos rico em diferenças, mais achatado pelos padrões globalizados. Aqui, a tolerância à diversidade - ainda que a um custo altíssimo para as camadas desprivilegiadas - é exercida desde a constituição desse lugar chamado Brasil. A arte reflete isso: multiplicidade de estratégias, multiplicidade de materiais, multiplicidade de abordagens.
Quando a crítica tenta, enfim, cobrar por resultados práticos como a quantidade de visitação pública aos espaços destinados à arte (como se esta só se manifestasse lá), fica claro sua incapacidade de lidar com essa nossa diversidade cultural, porque não compreende que a questão se desloca para a inserção de procedimentos e de atitudes diante do circuito. Quer discutir forma e conteúdo quando o que está em jogo é fluxo.
Sei que no último texto teve gente que achou hipócrita o exemplo da mulher com a roupa impregnada de gordura de cozinha e o corpo de desejos, me achando populista, mas eu ainda sou mais ela, cheia de amor para fazer arte.
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